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Estrelas Esquecidas — Luang Prabang: um destino anotado

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 22.07.2017

Um dia, nem muito tempo faz, alguns nomes de lugares no outro lado do mundo me chamaram a atenção, como Saigon, Delta do Mekong, Can Thó, Hoalong Bay e agora, Luang Prabang. Marquei no mapa e fugi pra lá. Encontrei-os fascinantes e continuam sendo. Inspiraram-me, fizeram-me companhia dentro da pesada distância onde a solidão voluntária me feriu fundo.

Em paz, cuidei das feridas e depois esqueci das cicatrizes. Para lá, fui cheio de dor, cabisbaixo, desapontado e profundamente triste. Descobri logo depois que quase tudo foi tolice, fraqueza temporária, defesas baixas da alma, cegueira, bobice. A luz acendeu sem que precisasse tatear na escuridão em busca do providencial interruptor da razão. Foi bom voltar a enxergar e aceitar as coisas exatamente como elas são, sem exageros, sem aumentar, sem diminuir, sem medos, sem oportunas demonstrações de força desproporcional.

Aceitar as mazelas de todo esse tempo vivido melhorou a consciência de que o tempo cobra da gente somente aquilo que nos permitiu aproveitá-lo. Tive momentos de "carpe diem" e depois não pude reclamar muito das consequências. Todo "carpe diem" tem um preço, mesmo que represente apenas uma birra irresponsável. A fatura da festa sempre chega no tempo devido e a conta é alta. O pior foram os juros do total que não diminui. Retomando aqui, depois que descobri no mapa a cidade de muita história e pouca gente vivendo por lá, quase anônima, fora do roteiro comum dos turistas que viajam porque podem e fazem mil compras também porque podem, mas sem precisar do que compraram, passei a sonhar com Luang Prabang.

A coincidência foi daquelas que facilitam explicar o ditado sobre a juntar a fome com a vontade de comer. O guru asiático de quem me tornei amigo prometeu-me a cura de males que insultaram meu corpo atrevido, mas ainda ousado, e que incomodam a minha alma, inquietando meu espírito. Logo logo vou encontrar-me com ele. Já avisou que as ervas colhidas sob a luz de uma determinada lua cheia estão no ponto e serão parte principal da sopa de promessas nas quais precisarei acreditar para ficar bom das inquietações modernas e dos resíduos de uma mordedura de cobra híbrida, tamanha a sua peçonha.

Em algum desses lugares para onde vou deve existir uma explicação para a teimosia de não deixar morrer esses pequenos ódios, quase transformados numa espécie de ira santa. Qualquer verdade obscurecida pelo oportunismo daquele que chegou primeiro e teve prioridade para ser o que nunca deixou de ser, mau, enquanto fazia a festa da cretinice para circunstantes ávidos de suas histórias pobres, mesmo fazendo o papel de donzela coberta apenas de pérolas falsas, nua em cima do palco de um teatro de periferia.

Existem ódios mortais que devem ser respeitados e esses nunca aceitam essa coisa de perdoar é sublime. Sublime, uma... Deixa pra lá. Estou a caminho de Luang Prabang. Lá é uma espécie de paraíso, difícil de chegar e mais ainda de querer voltar para as mesmas mazelas do mundo tal como o conhecemos. Daqui a pouco chego ao meu novo destino. Se não encontrar a cura para as minhas feridas, fico por lá, onde será fácil lembrar com o carinho mais puro que meu espírito encontre para festejar meus amigos raros e pessoas queridas de quem já sinto uma saudade imensa do bem que eles me fazem. Terei tempo para reler todas as cartas de amor e para lembrar que fui um homem de muita sorte porque sou rico por conta da falta que essas pessoas me fazem sentir e muito mais ainda porque sei que sou lembrado entre sorrisos e histórias engraçadas...

Düsseldorf, Alemanha, a caminho de Luang Prabang, no Laos.

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