Coluna

Estrelas Esquecidas: Ilha de Yasmim

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 07.07.2018

Nos aeroportos das grandes cidades do outro lado do Atlântico, afora os restaurantes, lanchonetes, lounges, tirante pessoas que viajam acompanhadas ou em grupos, a quantidade de solitários é imensa. Não fazem contato visual, não se cumprimentam, não sorriem, e passam um pelo outro com as suas atenções voltadas para horários de voos e portões de embarque.

Depois, enfastiados nas salas de espera, aconchegam-se às suas bagagens de mão, também por receio de que oportunistas, raros, é verdade, se apossem delas e procuram o que fazer para o tempo passar, principalmente nas escalas de longa duração, aquelas que barateiam o custo da viagem até a hora de seu embarque. Foi em uma dessas escalas enfadonhas que a conheci, aproveitando o momento para revisar as imagens que eu havia feito.

De repente, escutei um comentário despretensioso e acanhado: "Nice pictures..." (bonitas fotos) e emendou uma pergunta monossilábica de curiosidade simples: "Where?" - (onde?). Dei-lhe uma resposta comprida e completa: "Phù Quôc, uma ilha paradisíaca do Vietnam, na parte oriental do golfo da Tailândia e que faz parte da província de Kiên Giang". E continuei passando as imagens sem pressa, apagando algumas.

Como não fiz nenhum gesto indicando que a curiosidade dela estava me incomodando, inclinou-se para mais perto, não sem antes perguntar se podia. Fora o brilho das cores vivas das fotos na tela do iPad que chamou a atenção dela, sentada ali, ao meu lado, na poltrona aconchegante do lounge do aeroporto de Singapura.

Depois que me observou editando algumas imagens, fazendo enquadramentos, realçando brilhos e contrastes, perguntou se eu era profissional. Coincidências assim tendem a se aprofundar e depois de abrir aquela janela da simpatia, quando dei por mim, já havia dito que era jornalista, que era brasileiro, de Fortaleza e havia interrompido a sequência do meu trabalho para acessar o Google e "vender" a minha cidade de origem, da qual, também disse, já estava ausente por quase quatro meses, viajando sozinho.

Nessa altura, depois de mostrar-lhe Jericoacoara, Canoa Quebrada, a Beira-Mar, estendi-lhe a mão e falei meu nome. "E você?" Foi assim que conheci Yasmim, fugindo das restrições às mulheres de seu país e viajando ao encontro da irmã, já estabelecida em San Francisco, na América. Yasmim havia perdido parentes na guerra sem fim que destruía sua cidade: Aleppo!

Achei estranho uma jovem muçulmana abordar um homem desconhecido, coisa improvável, segundo os ensinamentos rigorosos da sua religião. Yasmim estava praticamente sozinha no mundo e estava à caminho da única referência que lhe restava, a irmã que morava doutro lado do mundo e que lhe mandara a passagem.

Ela tinha um longo caminho pela frente até encontrar seu porto seguro. Abordar-me fora uma forma de praticar os próximos contatos com pessoas de lugares sem noites inseguras, sem o barulho de bombas, gritos de dor, silêncio dos mortos.

Lembrei-me Yasmim porque fiquei imaginando se ela conseguiu chegar até à irmã. Lembrei dela porque vi, recentemente, o drama dos refugiados que encontraram portos fechados e crianças enjauladas justo no país com o qual ela sonhou como sua ilha de salvação...

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