Coluna

Estrelas esquecidas: Horizontes atrevidos

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 30.06.2018 / atualizado às 04:04

Sonhar é um verbo mágico. Diz-se que "amanhã é (sempre) um novo dia", por mais enfadonho que sejam os dias, mas cada hoje, se não é uma perfeição seguramente, é um crédito cobrado à vista. Pode-se até afirmar que o passado, em que pese ser imutável, dizer que é uma base, um alicerce ou um esteio - no sentido de ajudar a alimentar um sonho, seja ele qual for.

Assim, sonhar, um estado de alheamento que começa logo depois que dormimos, é uma embriaguez branda, lenta, gradual, porque é quando a alma e o espírito se dão as mãos e caem na farra que não cansa o corpo, a matéria.

Dia desses, estava refletindo sobre novos horizontes que ficam bem depois daqueles que já alcancei, viajando sozinho, por até quatro meses seguidos, movido pelo atrevimento, beirando o irresponsável, de vontades fortes que me motivam.

Nem liguei, diga-se, para o número de vezes que escapei de antecipar a prestação de contas final em lugares de difícil acesso imediato. Hoje, por conta da Copa do Mundo, quando se fala muito sobre a Islândia, o país-ilha com pouco mais de 300 mil habitantes e que conquistou a simpatia de quantos viram seus vikings jogando futebol, lembrei quando a Islândia foi o meu primeiro horizonte radical. Pois bem, quando era apenas um país exótico e gélido, radicalmente fora de qualquer roteiro turístico normal, escolhi esse Norte muito distante e segui a direção apontada pela bússola.

São pouco mais de três horas desde Londres até Reiquiavique, que é a capital, mas chegando ali, dois dias depois, afigurou-se-me pouco. Queria ir mais adiante, mais distante, mais perto do Círculo Polar, contemplar os glaciares e as águas revoltas dos mares do Norte; ver cara a cara aquele vulcão de nome difícil de pronunciar: o Eyjafjallajökull; mas quando cheguei lá, ele já tinha voltado a dormir. Pedi um mapa no hotel e procurei outra vez na mesma bússola um lugar chamado Akureyri, uma cidade da com aproximadamente 17.000 habitantes, localizado bem ao norte do país, na margem do fiorde Eyjafjörður, na província de Nordurland eystra.

Durante o inverno, baixas temperaturas, nevascas e ventos congelantes impedem o acesso pela única estrada que corta o país de uma ponta a outra. A opção então foi ir de avião. Para os mortais comuns, assumir voar em meio a fortes turbulências e sentir as emoções de um pouso com vento de través não é uma escolha sadia, digamos assim, mas o que é a vida? Existe perigo maior do que viver encarando diariamente as esquinas violentas da nossa realidade?

A turbulência nesse dia exagerou um pouco, é verdade, mas ao invés de apegar-me ao medo, cruzar as mãos e pedir rapidamente perdão pelo rosário de pecados, preferi imaginar que talvez fosse até interessante a possibilidade de descobrir certas informações sobre o Paraíso ou antítese desse.

Enfim, chegamos e pousamos, com vento atravessado e tudo. E era tudo deslumbrantemente lindo. E muito frio. O dia começava às 10h30 e a noite chegava pouco depois das 3 da tarde, mas, logo a seguir, Akureyri também continuou sendo pouco, ficou perto.

Do centro da pequena cidade, eu podia ver as montanhas cobertas de neve desde a janela do hotel modesto. E contratei uma van para me levar até à montanha, onde fosse possível. E fui. E marquei para o motorista ir me pegar de volta antes que anoitecesse.

Queria experimentar caminhar sobre a neve nova e macia. Queria contemplar os horizontes gelados sobre as águas do Atlântico Norte, entre a Europa Continental e a Groenlândia. Queria provar da sensação de estar absolutamente só na minha maluquice dentro de um momento especial, como diriam os amigos.

De repente, como acontece no lugar, em pleno inverno, sem aviso prévio, o tempo fechou e todas as referências sumiram dentro das nuvens brancas... Sentir medo é a melhor forma de acalmar certos ímpetos, alguma afoiteza.

A verdade é que ainda não foi daquela vez a tal da prestação de contas e a prova é tanta que estou aqui, lembrando com sadia saudade daquele momento, há quase cinco anos, quando ainda tinha um certo saldo de tempo para sonhar com novos horizontes atrevidos.

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