Coluna

Estrelas Esquecidas: Horizonte perdido

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 09.06.2018

É agoniante a sala de espera dos noticiários que precisamos visitar para a atualização do cotidiano. É contumaz triste constatar que a leitura das únicas notícias boas que pipocam nas telas eletrônicas ou nas páginas coloridas disponíveis versam tão-somente sobre a recuperação do dedinho do Neymar Jr., da participação da Pablo Vittar na Parada LGBT, enquete sobre qual famosa vestiu o melhor look no Oscar da moda, dicas do topless de Sabrina Sato que é recomendado para a amamentação, pergunta sobre qual o melhor signo com mais chances de se dar bem na paquera virtual.

De mais a mais, tirante a contumaz liberação de bandidos pela Lava Jato e afins pelo ministro alorpado (alorpado, sim, porque aloprado é uma deturpação) Gilmar Mendes, o desconto não imediato de R$0,46 no diesel, o aviso dos hooligans russos de que vai ter briga na Copa, os mais de 45 ônibus incendiados na Grande Belo Horizonte, a mando de quem realmente manda no País - e nem é de dentro do Palácio do Planalto ou da Câmara ou do Senado, mas de dentro dos presídios - e por aí afora. Notícias boas, nem pensar.

Assim, lá vamos nós ladeira abaixo, logo depois do fundo do poço. Daí, depois da dose diária de stress e desapontamento diante das perspectivas ruins para o resto de futuro que nos reserva, como muitos, escuto uma música do Burt Bacharach, Lost Horizon..! A letra da música nos remete a uma reflexão tipo "Yes, we can", lema da campanha de Barack Obama ou "I have a dream" (Eu tenho um sonho), nome popular dado ao discurso de Martin Luther King. Vamos lá: "Você já sonhou com um lugar, longe de tudo, onde o ar que você respira é suave e limpo e as crianças brincam em campos verdejantes? E o som das armas não chegam aos seu ouvidos? Você já sonhou com um lugar longe de tudo, onde os ventos frios do inverno nunca soprarão e as coisas vivas têm espaço para crescer, a muitos quilômetros de ontem, antes de você chegar amanhã, onde a hora é sempre apenas a de hoje? Há um horizonte perdido, esperando ser encontrado...".

Nesse lugar de Burt Bacharach, o Deus é simples e modesto na plenitude da Sua grandeza e não liga para rezas, mesuras ofertas oportunas, principalmente dos mais ingênuos, vítimas das suas próprias purezas e fé cristalina. Deve existir mesmo esse horizonte perdido, cada vez mais difícil de ser encontrado ou com acesso dificultado pelas enormes pedras colocadas ali pelos interessados em manter-se no cume de um Monte Ararat, onde uma suposta Arca lhes dá guarita contra os mares bravios de nossa terra, onde os sabiás já não cantam nem as aves gorjeiam mais.

O pior de tudo é ver e sentir na pele, na alma, no espírito, acomodação quase compulsória do conformismo silente dentro dos barcos frágeis que ainda flutuam em constante ameaça de soçobrarem nesse imenso mar revolto desrespeito a uma esperança que agoniza. "Quousque tandem - até quando, Brasil, o nosso horizonte continuará perdido?".

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