Coluna

Estrelas esquecidas: Homem vitruviano

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 22.04.2017

Em 1979, quando a sonda Voyager 1 foi lançada da Terra com a missão de perscrutar o espaço sideral, carregava em seu interior a mais avançada tecnologia disponível, na época, até para uma possível comunicação, pelo menos visual, caso encontrasse seres de outras galáxias. Vale salientar que há exatos 40 anos não existia celular, Facebook, selfie, e toda essa fuxicada que passou a girar em torno dessa moda incrível e que não para de evoluir. A Terra, podemos dizer, se divide em várias eras: antes e depois do celular; antes e depois do feminismo, do PT, da roubalheira, da Lei Maria da Penha e da banalização da nudez e sexo quase explícito nos programas tipo BBB.

Pois bem, essa sonda Voyager está muito longe de nós, já saiu do Sistema Solar e de onde o planeta não é mais visto nem como um insignificante pontinho de luz no céu. A Voyager 1 já atravessou um mar magnético e ultrapassou a marca dos 18 bilhões de quilômetros distante do Sol para continuar sendo a nosso embaixadora sideral, a transportar Universo afora antigas informações sobre a humanidade antes de muitas guerras, muitas bossas musicais, como o funk, e personagens exóticos, como o menino gordo, mimado, o Kim Jong-un, ditador da Coréia do Norte, as tragédias de Aleppo, só para citar alguns dentro do contexto de banalização da própria banalização de tudo.

A Voyager carrega um disco de ouro onde estão gravadas saudações multiculturais e fotos, no caso de a sonda encontrar alguma espécie inteligente no meio da sua trajetória. Nesse disco está gravada a figura do homem vitruviano, baseado numa famosa passagem do arquiteto romano Vitrúvio na sua série de dez livros intitulados ""De Architectura", em que, no terceiro livro, ele descreve as proporções do corpo humano. A mulher vitruviana, que na verdade não existe, ficou de fora.

Entre centenas de objetivos da missão, a Voyager 1 estuda as partículas exóticas e outros fenômenos em uma parte do universo nunca antes explorada e envia os dados via rádio de volta para a Terra, onde a equipe de cientistas aguarda essas descobertas. Extraterrestres, presumíveis habitantes fora do nosso modesto sistema solar, se comparado com o que existe muito além das fronteiras incomensuráveis, caso encontrassem a Voyager veriam, na figura de um homem nu de braços abertos, o referencial machista dos habitantes de um certo planeta azul e que se acha o centro do Universo, mas essas informações foram compiladas quando o movimento feminista ainda não tinha força para impor sua inclusão nesse disco de ouro embora existam ali imagens que mostrem, em segundo plano a presença de uma companheira desse Homem Vitruviano.

Se não estivesse tão distante, as mulheres modernas bem poderiam mandar deletar tudo e incluir ali o seu lugar de destaque no Universo moderno. A verdade presumida é que se independentemente desses direitos, dessa onda de "meu corpo minhas regras", extraterrestres que baixassem por aqui, ao se depararem com os exemplares da raça humana em pleno domingo de sol em uma praia como Copacabana, entre outras, diriam, na sua língua: ET QUER FALAR COM CHEFE ALI!

Apontando seu dedo comprido para o ser exuberante, dourado, bem vestido com a nudez que lhe é peculiar com toda desenvoltura, tudo dentro dos conformes do meu isso, meu aquilo. E aí, o Homem Vitruviano ficaria em segundo plano...

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