Coluna

Estrelas esquecidas: Homem chora, sim'

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 25.03.2017

Estava ali, vendo o clipe Asturias, do Barcelona Tribe, ou B-Tribe, com imagens belíssimas a fazer par impecável para a música dessa banda espanhola, e, sem saber o porquê me senti invadido por uma sensação melancólica que me fez cruzar os braços sobre o rosto e mergulhar em uma escuridão maior que a da madrugada...

Incomodou-me a sensação das lágrimas traiçoeiras a forçar passagem para escorrer pelo rosto. Enquanto procurava o nome dessas lágrimas que me pegaram de surpresa, vasculhei histórias mal acabadas, saudades de poucas alegrias, de lembranças de longe que ficaram cada vez mais distantes e que quando voltei para procurá-las já não podiam mais se materializar. Tinham seguido o caminho natural das distâncias.

O tempo não perdoa, é preciso respirar para sobreviver. E aconteceu. Se mesmo tempo não pode ser adiado, assim como as marés não esperam para acontecer. Fiquei dentro de um vidro de Acqua di Giò como escolha de uma preferência, presente bobo que eu sabia não iria me inebriar porque logo estaria outra vez cruzando um oceano de despedida de coração vazio.

Mas essas lágrimas podiam ser dos fracassos pelas buscas de sorrisos em outros lábios, outras bocas, outro beijos, muitos. Podiam ser por conta dos diminutivos que me encantaram sem me dar conta e, quando silenciaram porque saí, arrogante, fechei a porta e quebrei a chave, fizeram o chão sumir dos meus pés. E da noite para o dia ficou tarde demais.

O pedido no bilhetinho "preciso de um abraço para sobreviver" e que neguei agora me fazia falta de dar para receber. Podia ser porque a mulher que cobri de estrelas verdes e que nasceu num arremedo de felicidade morreu dentro de uma taça de vinho em um noite de infeliz escolhas. Asturias me pegou de cheio sem norte, sem direção, sem entender como havia chegado inesperadamente a essa tristeza e nem por que estava ali.

Senti medo do soluço que se avolumava no peito e apertava o coração bobo a se fingir de forte. Precisei apertar mais os braços sobre o rosto na tentativa de proteger a mim mesmo sem saber contra o quê, contra a invasão dessa tristeza imensa que encontrou em mim um alvo fácil para assestar suas armas rancorosas contra minhas culpas por haver ferido sentimentos alheios. Aqui se faz, aqui se molha o rosto de arrependimentos. Mas eles, tantos que fossem, já deveriam estar adormecidos.

Infelizmente, por menos valia que tenham porque nunca tem mais jeito nem se pode voltar no tempo para corrigir, os arrependimentos ficam depois da linha que separa a razão da tolice por um imenso abismo cheio de desculpas para as culpas que bem poderiam ter sido evitadas. Mas qual culpa? Qual arrependimento? Que passagens, nessas histórias que o tempo havia engolido? Com quem? O nome? Estava tudo junto e misturado.

Mesmo na escuridão que me impus nesse abraço curto, eu corria de um lado para outro tentando escapar desse gosto salgado que me chegava aos lábios. Dentro da casa vazia eu podia gritar uma revolta qualquer, mas sentia vergonha por não saber explicar para mim mesmo a razão de estar chorando. Ainda tentei me convencer que homem tem de ser macho. Homem não chora... Mentira! Chora, sim. Pode não dizer, mas chora!

Encontrei um brecha entre um suspiro e outro e respirei fundo, o tempo suficiente para refletir: eu estava triste e chorava por alguma coisa importante que me separou de uma felicidade tivesse lá o nome que tivesse, mas foi parte da minha vida até que os primeiros acordes de Asturias me remeteram a essas lembranças tristes, todas misturadas em uma única música.

Não importava qual história, qual momento, com quem ou quando e eu ainda estava vivo para me lembrar, para sentir falta, mesmo sem saber especificamente do quê ou o nome específico dessa saudade, e chorar porque o tempo passou, mas me deixou viver... Homem chora, sim, muitas vezes sem ao menos saber a razão de descobrir-se chorando.

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