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Estrelas Esquecidas: Explicando uma partícula

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 28.10.2017

Olhando assim, o "se", isoladamente, apenas intriga e incomoda, principalmente se advier a incômoda pausa explicitada por uma reticência chata cheia de insinuações ou deboche. Dita ou escrita, essa aparente partícula complica, mas não determina nada. Na realidade, o "se" é uma partícula que só a gramática explica com muita propriedade a metamorfose circunstancial de sua colocação em qualquer contexto.

A gente só sabe ou sente a força do "se" se o "se" nos diz respeito, serve de desculpa, explicação, aparente atenuante ou agravante determinante dentro de uma firula jurídica que só a hermenêutica pode se valer para contextualizar uma desculpa para diminuir uma culpa e tentar transformar uma culpa em um dolo eventual. Ora, o "se" pode ser uma conjunção subordinativa integrante quando introduz orações subordinadas substantivas, tipo "quero só saber se ela terá uma desculpa". Se não tiver, complica.

Quando faz papel de conjunção subordinativa adverbial condicional, serve para facilitar uma explicação, tipo "deixe um recado se você não me encontrar". Ora, se não procurei não encontrei, mas posso dizer depois que só não deixei recado porque não tinha um pedaço de papel. Ah, quando faz o papel de pronome reflexivo, por exemplo, funciona como objeto indireto e sujeito do infinitivo: "a criança machucou-se". Foi acidente ou descuido? Se foi coisa séria, coisa boba ou está internada porque foi grave aí é outra história...

Como partícula apassivadora, é um capítulo à parte. Isso porque essa partícula é a única forma de ligar verbos na voz passiva onde o sujeito recebe a ação em vez de praticá-la, tipo "contaram-se mil histórias sobre ela". Fofocas! Do mesmo jeito como pode ser índice de indeterminação do sujeito, em discorda-se de tudo o que disseram. O "se" serve de pouca coisa quando é uma insignificante partícula esportiva, tipo "ele acabou de sentar-se". No que se colocar "ao lado dela" pode ter maldade.

O "se" é parte integrante do verbo quando está ligado a verbos pronominais. No caso de uma confidência de uma amigo para outro: "dou tudo o que me pede, mas ela não cansa de queixar-se". Como se vê, o "se" não é fácil. É uma partícula, é verdade, assim bem explica a gramática que ninguém decora; independente de quem sejamos, de quais sejam as nossas legendas, lendas ou desabafos ou mesmo em conversas descontraídas, essa partícula é usada e abusada e nem notamos, ou quando fazemos uso dela geralmente já é tarde, muito tarde, tarde demais ou passou para a casa do sem jeito.

Nesse caso, o melhor é SE conformar - que eufonicamente fica bem melhor que confirmar-SE, que pouca gente usa, tirante os mais exigentes. Todo mundo tem seus "se" e alguns até chegam a ser engraçados. Tenho cá um monte deles pendurados nas paredes dos quartos da minha vida, dentro dos quais muitas vezes me recolhi e procurei uma janela para debruçar silenciosos desabafos, como agora, aqui, do outro lado do mundo.

A maioria desses "se" estão nas molduras pesadas de arrependimentos marcantes. Não servem de absolutamente nada, mas mesmo que os jogue pela janela depois das conclusões tardias dessas reflexões, continuarão lá: "e se eu não tivesse pedido aquele beijo?" - o pior desses "se".

Da Lat, a oeste do Vietnam, outubro, 2017.

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