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Estrelas Esquecidas: Estranhas raízes

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 11.11.2017

Desde a primeira vez que escolhi a Ásia como refúgio para a mazelas acumuladas, quatro anos já se passaram desde o primeiro desembarque. Até chegar a Saigon, onde não conhecia ninguém e não havia ninguém a me esperar no aeroporto Tan Son Nhat, o caminho foi longo: Fortaleza - Lisboa - Londres - Reykjavyk (capital da Islândia) - Dubai e, finalmente, o Vietnam. Sem saber, viajava comigo um anjo da guarda...

Hotel? Escolhi no aeroporto, e o táxi contratado me levou diretamente ao endereço. Foi só deixar as malas no quarto, saí para as ruas de nomes impronunciáveis e difíceis de decorar. Marquei um destino à esquerda, onde enxerguei mais luzes, e fui ver no que dava. Encontrei um shopping, Vincon, e entrei. Alguma coisa me parecia conduzir a uma loja que vendia relógios e sussurrou: "Entra!".

A primeira vendedora que me atendeu devia estar em seus dias antipáticos e intoleráveis. Já fazia meia volta para sair quando uma outra moça me abordou: "May I help you?" - posso ajudar? Eu não precisava de relógio coisa nenhuma. Queria mesmo era interagir com alguém do lugar. Anjos aparecem e não se explicam, vão segurando a mão da gente. Para encurtar, menos de três horas desde a saída do aeroporto, já estava sentado com a vendedora em um mercado popular, experimentando a comida exótica do lugar e, a seguir, assumindo o risco de montar na garupa de uma motobike da irmã dela e desfilar pelo centro de Saigon, no meio do trânsito mais confuso do mundo.

E o anjo lá, dando força, parecendo dizer "Vai, tô aqui...". Nem em um milhão de anos vou entender como tudo aconteceu. E quer saber? Esse anjo não falava mais de meia dúzia de palavras em inglês, afora o "may I help you". Linh, era esse seu nome. Pois bem, dessa última vez, meu porto de chegada foi Hanoi, vindo de Tóquio e à caminho de Luang Prahbang. Qual não foi a minha surpresa quando ela me disse que havia pedido licença no trabalho e dito ao namorado que iria encontrar o amigo brasileiro a 1.137 quilômetros de distância, e foi mesmo. Como entender uma vietnamita, uma asiática de cultura e costumes diferentes, fazer tanto por um ocidental vindo do outro lado do mundo e cujo nome não sabe nem ao pronunciar direito?

Seu sonho não é vir conhecer o Brasil, onde já se tornou íntima da minha família. Linh quer ir embora para a América, "mas o Trump não deixa", disse-me com humor. Batemos perna em Saigon até o dia de eu viajar ao Laos, e como ela não podia ir comigo, tomou um avião de volta a Saigon, de onde me acompanharia a Da Lat. E aí, chegou o dia de seguir meu caminho rumo a Cingapura. Linh acompanhou-me ao aeroporto em silêncio.

Os asiáticos não são chegados a demonstrar emoções nem ao toque. Com ela não seria diferente. Chegada a hora de embarcar, deu-me um abraço e disse apenas "Take care" - tenha cuidado. Não dei três passos, quando me virei para acenar, ela já havia sumido na multidão, como somem os anjos quando cumprem a sua missão.

Hoje, sete dias depois de ter ido embora do Vietnam, um sinal no iPad avisou a chegada de uma mensagem. Era dela: "I sad... Miss you..." - eu triste... Saudades de você...". Não tive como responder. Não se deve aprofundar raízes com anjos da guarda. Eles não existem...

Cingapura, novembro'2017.

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