Coluna

Estrelas esquecidas: estranhas ligações

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 18.11.2017

Ao longo desses quase 16 dias ausente dos hábitos do meu lugar, precisei trocar o cartão SIM em cada país por onde passei pelo cartão da operadora brasileira. Fazer uso das redes de WiFi de cada lugar era assumir o risco dos avisos: "Esta não é uma rede segura". Sempre deixei o telefone inteligente no modo "avião", mas nem por isso deixei de receber mil ofertas das operadoras através de insistentes mensagens. Ignorei todas.

Acontece que, desde que cheguei à Fortaleza, tenho recebido ligações estranhas e misteriosas, pasmem, da Rússia, de duas a três chamadas. Passei a bloquear o "chamador", como manda a cartilha e o bom senso. Acontece que cheguei a pensar que fosse a Dasha, amiga de meu filho que mora em San Francisco, nos Estados Unidos. Não era, não foi. A outra alternativa era o Putin, que anda meio isolado, sem nada pra fazer, ignorando até o aniversário da Revolução Russa. Tem se divertido praticando mergulho nas águas geladas da Sibéria, tomando lá as suas vodkas, mas nem ao Bolshoi ele vai. As bombas e foguetes sobre Aleppo silenciaram, o Estado Islâmico ficou reduzido a três gatos pingados e os lobos solitários que atacam aqui e ali precisam se matar logo em seguida, e a contabilidade está no vermelho.

De repente, lá toca o telefone. O número indica o prefixo de uma cidade e logo abaixo, Rússia! Por duas vezes, cheguei a perguntar: Putin? Cinco segundos sem resposta significa que pode ser alguém tentando rackear meus dados. Essa é a prática. Desde que vi pelo YouTube um vídeo da chegada e entrada do presidente russo no palácio do Kremlin, aceitei, em caráter definitivo, a pobreza e insignificância do nosso País ante a comunidade internacional. Olha, com todo o respeito, mas acho que nem mesmo o Criador entra no céu com tanta pompa. Impressiona, viu?

Continuando... Enquanto escrevo essas mal traçadas linhas, como costumava dizer Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, o telefone tocou duas vezes. Uma, era da Rússia, mais uma vez. Como não atendi, entrou uma outra, mas essa era dos Estados Unidos. Também não atendi. E aí, o nível baixou. Agora mesmo era uma chamada de São Paulo, o que me levou a imaginar o Putin tendo ligado para o Trump perguntando o que estava havendo e se ele sabia os motivos de eu estar ignorando as ligações dele. "Não tenho a menor ideia..." - imaginei também o Trump se esquivando e, quiçá, sugerindo que ele ligasse para o Brasil.

Como não dei a menor bola para essas ligações, veio a última, mas essa era de Ribeirão Preto e a mocinha foi logo se adiantando: "Oi, gato!". Entrei no pagode e respondi, antes de desligar: "Meow!" que é o mesmo que "miau", só que em inglês. Gostei do "oi, gato!". Mesmo com jeito de mulher bem ordinária, mas convincente. Só não estiquei a conversa porque ela poderia notar que o gato aqui está bem cansando e, das sete vidas que tinha, três ficaram no Afeganistão, uma outra no Miyanmar, outra em Sa Pa, na fronteira do Vietnam com a China, e uma outra, em Da Lat, também no Vietnam - essa, a mais ridícula, abalroado por uma bicicleta numa estrada de chão batido. Ainda bem que tinha mais duas. O gato envelheceu e só tem uma agora. Lembram da crônica sobre a mulher do chinês, lá em Luang Prabang, no Laos? Pois é, declinei da sopa que o marido dela fez pra mim. Agora, esses telefonemas estranhos. Pode até ser que a paranóia seja por conta do jetleg. Meu organismo ainda está confuso. Venho de um lugar onde, quando lá o sol estava nascendo, o sol daqui estava se pondo. Os russos são estranhos, arrogantes, prepotentes, mas o Putin é um amor de pessoa. Se era ele e não atendi, foi deselegância da minha parte. Conheci muita gente ao longo desses dias, mas não me lembro de nenhum russo nessa viagem. Sobrou o Putin. Não atendi nem vou atender. Registrei tudo como spam

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