Coluna

Estrelas esquecidas: Do sonho à realidade

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 18.03.2017

Há algum tempo, fui alvo fácil para um "oi" florido e silencioso, desses que a gente encontra ao acaso na rede do mundo virtual. Não foi um "oi" comum, parecido, imitado, sem força, sem energia, passageiro. Foi um "oi" forte, seguro, sincero, feito semente boa que encontrou terra fértil na solidão voluntária depois de uma fuga necessária.

Escrevi certa vez que liberdade é quando se tem diante de si todas as portas abertas por onde sair, correr sem olhar para trás, sem destino certo, sem hora para chegar, hora para dormir, acordar, pegar um trem, um navio, um barco ou uma canoa e atravessar um rio qualquer ou um mar sem nome e ser feliz onde quer que chegue, que aporte, carregando apenas uma mochila de pouca muda e aí, de repente, sentir ficar preso a um nome, um cheiro, a um perfume dos mais simples ou um sorriso, um som suave de uma voz doce, mesmo sem o toque, o estar perto para um abraço de verdade ou uma cama real.

Felicidade é sentir-se exatamente assim: livre para correr mundo afora e querer ficar preso a um "oi". Durante dias e noites fiquei feito sentinela mais que atento ao som até do mais sutil pensamento sobre esse "oi". Se ele parecia respirar mais forte, por sorte eu estava ali; se ele era mais intenso, para dizer presente à mais simples insinuação de troca de calor ou de febre no mundo virtual, estava ali, dizendo presente.

Muitas vezes esticava o "oi" escrito na tentativa de que ele crescesse, virasse uma frase, uma página, um capítulo e fosse maior. Quase nunca era, mas pouco me importava. Cuidava para que ele não sumisse de vez. E não dormia nem descuidava dessa vigília. Passei a me alimentar desses "ois" que rareavam, mas não desistia. Pelo contrário, cheguei a ganhar forças para escrever quase um livro em resposta a qualquer desses simples cumprimentos. E se havia o exagero no acréscimo de "meu querido" depois da vírgula, ah, aí é que eu esticava, exagerava, quase não parava na resposta imediata, incontinenti e o que escrevia de volta eram relatos compridos de um sonho inteiro, só meu, mas quase sempre interrompido quando do outro lado esse "oi" adormecia cansado desse conto e pronto! Fechava o livro e ponto...

Ponto final até tarde do dia seguinte quando feito quase um pedinte, perguntava ansioso: "Gostou?". Hoje, o sol estava se enfeitando para o amanhecer e estranhei ter dormido pesado a noite inteira, direto, até agora, no meu leito, com calma no peito, com mais jeito. E havia uma pergunta perdida à espera da leitura: "Perdeu o sono?". Foi aí que descobri que pura e simplesmente apenas adormeci de verdade. Não que tenha desistido do sonho que encontrei lá atrás, desde o primeiro "oi", nem lembro mais quando, e me apaixonei na hora, grudando no seu eco replicante, na sombra dele, nos rastros deixados no ar e que segui com imaginação fiel.

Não, minha doce criatura, eu te respondo, eu não perdi o sono, pelo contrário, encontrei muitos deles perdidos nas esperas compridas que valeram a pena, acredite. Escritores, poetas, homens apaixonados também cansam, enfraquecem, porque sonhos e fantasias alimentam a alma, fazem bem ao espírito, mas o corpo um dia enfraquece e, mesmo sem desistir de chegar ao alto da serra, àquela casinha branca onde aprendeu a cultivar a felicidade há tanto imaginada, fantasiada, cultivada, fazendo viagens incansáveis nas asas da imaginação, nunca ou quase sempre desfalece.

Apenas fiquei exausto de esperar por pouquinha coisa mais que o "oi" e precisei me deitar, dormir e recompor para fazer um caminho de volta e reencontrar a gênese desde aquele simples primeiro "oi", quando foi criado dentro de mim esse universo imenso do destino que sempre começa com um sonho e chega finalmente à realidade. Hoje, minha querida, vi o sol nascer com uma imensa alegria, sensação redobrada de liberdade. Acordei feliz.

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