Coluna

Estrelas Esquecidas: Descoberta tardia

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 03.02.2018 / atualizado às 01:39

Interessante, com tanto tempo vivido, tanta experiência acumulada, só recentemente deu-se conta de que falar do passado é um retrocesso. Quanto tempo perdido! Lembro, com alguma tristeza, do homem que chegou ao seu destino percorrendo justamente a estrada que fez tudo para evitar. O lugar onde parou para dar uma trégua à sua canseira, nem lembrava mais, mas não esqueceu que, de repente, depois de dizer para si mesmo "vai dar certo...!" sentiu, justo nesse inofensivo consolo, que estava certo quanto às dificuldades do dia que chegava ao fim e as que o tinham vencido no dia anterior e no outro e no outro, e que as mentiras mais convincentes que vinha contando a si mesmo, mesmo as mais aparentemente inofensivas, envolveram sonhos de esperanças, embora o tempo que lhe restasse para continuar acreditando nelas fosse pouco.

Foi ao pôr do sol de uma tarde distante que olhou para o brilho acanhado de Vênus que despertou no céu na suave agonia do entardecer e ainda tentou acreditar no amanhã que traz sempre a promessa de um novo dia. Coisa de romântico, apaixonado, fora de moda, sem mais valor ou de pouca valia para os corações apressados que batem agoniados dentro do peito de quem, sem saber, precisa acostumar-se à solidão.

Não é fácil entender a arte de ser para poder estar, onde quer que seja, e acostumar-se à ideia da existência de alguma ou muita paz na solidão voluntária dos cansados de caminhar sobre pedras ao longo de muitos caminhos que nem precisavam ser tão difíceis assim. Aquilo que é muito fácil geralmente aparenta não ter valor, mas o preço pelo que é difícil excede a capacidade de muitos de caminhar dias inteiros debaixo do sol para chegar a uma sombra, a um poço no meio do deserto, num oásis cercado de distâncias que dão medo.

Fingiu coragem no alto de uma duna, no Saara, perto de Agadir e outra vez, à luz de estrelas que nunca tinha visto, no topo da montanha sagrada e quase anônima, bem acima no Círculo Polar Ártico, no Polo Norte, e lembrava com absurda nitidez, como se tivesse sido ontem, embora já estivesse longe demais dessas emoções. Depois dali, mas nunca mais chegaria de vez. Estava sempre arrumando a mala para ir embora como se houvesse um horizonte definitivo no fim da sua busca.

Outra mentira. Depois de um, existe sempre outro horizonte qualquer e existem outras distâncias, e vencê-las, dia após dia, chega a dar um desânimo enorme, mas repetia: "vai dar certo, mais um pouco e eu chego lá...". E nunca chegava. Estava sempre indo embora. Desfez-se do excesso de bagagem, jogou fora mil promessas de amor que nunca se cumpriram. Perdeu tempo demais com as mágoas que foram apenas armadilhas feitas com a boa fé que muitas vezes teve. Perdeu tempo com as promessas que também fez sabendo que nunca iria cumpri-las. Chorou, é verdade, mas igualmente, por vingança também fez chorar.

O troco de enganar é ser enganado. Sabia disso. Quis ter razão e descobriu que na maioria das vezes apenas se fez de vítima. Ninguém é. Existe muita culpa compartilhada nos confrontos quando os lençóis não servem mais de nada. Ser é uma arte. Nem todos são capazes de exercitá-la ou de entendê-la. Melhor fingir contemplação das cores das emoções a analisá-las em voz alta ou fazer perguntas idiotas. Pior, pedir conselhos. Cada um tem uma resposta diferente porque teve uma dor parecida. Que nada!

Fez as contas do tempo que viveu: multiplicou segundos por minutos, por horas, por dias, meses, anos, deixou de fora anos bissextos. Uma conta enorme! Até nesse momento, perdeu tempo porque nenhum segundo se repete, nunca houve uma segunda chance para nenhum deles. Inclusive nenhum. Olhou para frente. Olhou para o céu. Estava nublado. Tinha cheiro de chuva no ar, tangida pelo vento que se assanhava. Ia esperar. Queria tomar banho de chuva, lavar a alma, os pensamentos, gritar no meio da madrugada, fingir-se de louco. E gritou.

Foi só um grito sem nome, sem uma frase. Escutou um "cala a boca!" - berram-lhe de uma janela. Riu de si, do grito que deu e foi embora debaixo da chuva que chegou forte. Desapareceu numa rua quase anônima, mas dessa vez não disse que ia dar certo. A única certeza era a de que iria chegar em casa molhado. Talvez gripado, talvez não, mas por alguma razão não estava triste ou melancólico. Não tinha mais tempo a perder. A descoberta das coisas simples podia até ser tardia, mas ia curtir o saldo de tempo que ainda lhe restava.

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