Coluna

Estrelas Esquecidas: descoberta de palavras novas

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 19.05.2018

Palavras novas, vá entendê-las! Em leitura despretensiosa, dia desses, encontrei uma palavra diferente, jamais dantes vista. Instigou-me pelo simples fato de que o cronista que dela fez uso apenas adjetivou a personagem do seu artigo e foi embora depois do ponto final: gamine! E pronto. A moça a quem ele se referia era gamine. Gamine sugere uma palavra francesa, mas tem tradução estranha em inglês, "waif", um estereótipo feminino e personagem modelo. Ora, ora! Melhor não dizer que uma pessoa é gamine, termo cunhado em inglês, em meados do século XIX, na obra de Thackeray, em 1840,em uma de suas esquetes parisienses, ganhando uma nova conotação no século XX. Gamine! Já existiam pessoas gamines muitos anos atrás, digamos assim. Hoje, não arrisco dizer que uma pessoa seja gamine goste dela ou não, ou até para defini-la em qualquer contexto, principalmente nos com essa moda de gênero apregoadas com bandeiras desfraldadas e tudo o mais. Nada a ver com nada. O assunto é gamine, usado por Thackeray para definir um estereótipo feminino e personagem modelo caracterizada por mulheres que, por trás da aparência infantil, frágil, carente e que inspira proteção, ocultam malícia e perniciosidade. Já no século XX, passou a designar moças magras, por vezes arrapazadas (boyish), de olhos largos e cabelo curto, geralmente escuro, além de sedutoras e sexualmente instigantes. A concepção de Thackeray no século XIX e a nova "versão" no século XX não é que conflitam, mas convergem apenas quando dizem que as pessoas gamine, tirando uma média, seriam maliciosas, perniciosas, sedutoras e sexualmente instigantes. Tudo de bom para quem ainda lembra como era bom flertar, curtir um olhar 33, cheio de insinuações, as mais diversas e enigmáticas. Acho que dancei um bolero com uma moça de tez dourada pelo sol, ao som de Ivonildo (sax) e seu conjunto, em uma época em que o maior temor da rapaziada que curtia dançar de rosto colado - aliás, tudo colado, inclusive a alma e os pensamentos - e se juntar no miolo do salão era quando a diretoria desmancha prazer sinalizava para o conjunto parar abruptamente. Puxa, sem necessidade! Hoje não tem bolero, não tem Besame Mucho, Siboney... O "bate estaca" acabou com as gamine maliciosas, com cara de anjo, é verdade, mas um amor de época. Saudosismo não é ruminar os ocasos dos que já passaram do ponto... É a certeza que dói por saber que nunca mais o cha-cha-cha, La Bamba, aquilo tudo, o Maguary, Náutico, Diários, se repetirão. As gamine, é verdade, ainda estão por aí, separadas em grupos, esperando que os rapazes sarados se esqueçam um pouco de seus tanquinhos, de suas conversas bobas, de tirar as camisas nos finais das baladas e se deixem fisgar pelos olhares das gamine de hoje. Elas são mais bonitas e bem cuidadas que as gamine de ontem, mas estão mais sozinhas que nunca. Tanta sedução jogada fora, tanta malícia desperdiçada. Tanta gamine curvada sobre as pequenas telas luminescentes de seus smartphones, num silêncio de doer nas recordações daqueles que viveram a vida. Nem dizer que uma pessoa é gamine se pode mais.

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