Coluna

Estrelas Esquecidas: De quem é a culpa?

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 17.02.2018

Para Maiara Magalhães, em seu artigo o ABC dos Sentimentos, publicado na edição da revista Veja de setembro de 2010, as emoções mostram como elas são fundamentais para as decisões movidas pela razão. No filme "A Culpa É Das Estrelas", os protagonistas da história, Hazel Grace e Augustus Lancaster, dois adolescentes que se conheceram em um grupo de apoio para pacientes com câncer, ela, que sempre descartou a ideia de se envolver amorosamente por conta do diagnóstico da sua própria doença, acaba cedendo ao se apaixonar por Augustus.

Para as pessoas que ainda cultivam a arte do romantismo, o filme é de fazer chorar praticamente do começo ao fim, principalmente porque envolve dois jovens bonitos e inteligentes. Jovens bonitos são fáceis de encontrar, mas inteligentes, é preciso ter cuidado porque, por culpa da internet e suas mazelas, estão sendo transformados em verdadeiros zumbis sarados, hipnotizados por uma telinha luminescente, a caminhar ou se portar, em qualquer lugar, como tal.

Movidos pela razão, pela conscientização de suas certezas de que não lhes está reservado um milagre para lhes curar a terrível doença e fadados a aceitar uma dessas desculpas pobres de que "Deus sabe o que faz", aproveitam o que lhes sobra de tempo enquanto não lhes chega a hora, como demonstrações de amor, carinho, tudo sem o exagero da paixão ardente, mas sim através de um sentimento bonito expressado por ambos com toques de discreto humor.

No final, Augustus morre antes de Hazel e na cena final, ao ler uma carta que ele havia escrito para ser lida no dia da cerimônia fúnebre dela (foi um pacto de ambos, diga-se de passagem), ela, depois de ler a mensagem dele, aparece olhando para o céu, onde estão as estrelas, embora a cena seja de dia. Como não vi o começo do filme, fiquei sem saber a razão de ser a culpa das estrelas.

Aliás, não apenas os jovens dessas últimas duas ou três gerações, mas também muitos adultos deixaram de olhar para cima, curtir uma noite sem lua para melhor curtir um céu estrelado e só se voltam para a lua quando se alardeia que ela será uma diferente, grande, de sangue, como aconteceu na semana passada. Há muitos anos, aqui mesmo, neste Diário do Nordeste, tenho procurado lembrar essas Estrelas Esquecidas. Não que cuide delas, mas ainda sou daqueles que se interessa por espiá-las através de um binóculo ou modesta luneta.

São apenas pontos brilhantes, é verdade, a conversar com suas intermitentes cintilações mágicas espalhadas pela imensidão incomensurável do Universo, mas encantam, contam lá seus segredos e suas histórias e escutam confissões daqueles que, da janela de suas solidões, choram suas mágoas, roem suas cordas, fazem seus pedidos e desejos.

Podemos alcançá-las somente através do pensamento ou da imaginação, as únicas coisas capazes de viajar mil vezes na velocidade da luz. Hoje, infelizmente, pensa-se pouco e a imaginação, na maioria das vezes, é pobre ou pouca. O que quer que me tenha acontecido de ruim, foi por culpa minha. As estrelas não têm nada a ver.

Pelo contrário, foi à luz de seus discretos brilhos que tive a mais fantástica visão de uma mulher apaixonada a desafiar os preconceitos mais fortes de 30 anos atrás e deixar os rastros de sua nudez oferecida nas dunas de uma praia distante enquanto o perfume que emanava de sua pele branca e macia subia aos céus.

As estrelas sabem disso e não mentem. Voltamos ao mesmo lugar outra vez, em uma lua grande, enorme, quando pude tê-la mais nítida diante dos meus olhos e dentro dos meus braços e dos meus beijos. Hoje, somos história; as recordações e as saudades envelheceram. Perdemo-nos, faz tempo. Não lembro o dia em que tudo começou, mas nunca me esqueci do dia quando desligamos o telefone pela última vez, ressentidos, magoados, cheios de culpas e razões. A culpa nunca foi das estrelas. Foi nossa mesmo.

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