Coluna

Estrelas Esquecidas: cirurgias comportamentais

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 12.05.2018

Estava ali, vendo um documentário sobre pessoas que, por alguma razão, seja pelo prazer dos desafios mais ousados ou simplesmente para alimentar o ego, decidiram enfrentar o pico mais alto do mundo: o Everest! Diga-se de passagem que apenas uma parte desses aventureiros sobreviveu, depois de desfraldar as bandeiras de seus respectivos países, posar rapidamente para uma fotografia e fazer, bem depressa, o caminho de volta.

Essa reportagem, que envolvia um homem de 80 anos, falava de algumas fatalidades que aconteceram. Entre as pessoas que não persistiram às tempestades, havia um japonês que foi dado como morto, mas estava apenas coberto debaixo do que sobrou de sua barraca, semiarrancada pela força da ventania, já nos limites da resistência humana e que foi resgatado. Pagou pela ousadia. Teve os dedos das mãos e parte dos pés amputados, além da ponta do nariz e outras sequelas.

Nesse documentário, confessou-se arrependido e assumiu perante as câmaras que se pudesse voltar no tempo não teria desafiado a montanha imponente. Um dos sobreviventes deu depoimentos sobre o que foi a aventura e, se não me falha a memória, teria falado do caráter desse senhor japonês que, antes de sucumbir aos rigores da descida, teve atitudes nobres ajudando a salvar um companheiro de empreitada. Essa pessoa o definiu assim "caráter é o que você faz quando ninguém está olhando", mas sabe-se que todos aqueles que assumem os altos riscos de escalar o Everest estão cientes de que tentar ajudar alguém numa tempestade sempre está fora de cogitação.

Imagino o orgulho dos filhos, netos e bisnetos desse herói, enquanto... Pois sim, aqui mudamos o rumo desse introito como quem faz uma curva fechada. Ao longo dessa semana de maio já descendo a ladeira, os noticiários fartaram-se na exibição de imagens da família Geddel, envolvida na falcatrua gulosa de mais de 50 milhões de reais. Não houve um planejamento cuidadoso para escalar essa aparentemente fácil e convidativa montanha de dinheiro. Descê-la não era uma opção. Ao invés de fazer uma foto rápida no alto desse pico altíssimo e brandi-la com orgulho, a equipe pretendia ficar no topo, deixar que a tempestade se desfizesse lentamente e depois ficar lá no alto mesmo, mãe e filhos, com a maior desfaçatez gozando da vista privilegiada de um céu azul de doer na vista enquanto o resto dos mortais agonizava nos corredores dos hospitais ou padecendo no "aconchego" de ocupações oportunas.

Nos noticiários que abordam os malfeitos dos filhos da periferia, muitas mães aparecem chorando abraçadas aos filhos que morreram por conta das disputas do tráfico. Os mortos dos Himalaias são homenageados e apresentados como homens de coragem, mesmo que seja muito alto o preço para exibir a bandeira de um país e fazer uma foto rápida. Aqui embaixo, melhor é tentar esconder-se no anonimato que permite rir desavergonhadamente das caras alheias sabendo que, em casa, mais de 50 milhões estão bem no quarto ao lado, esperando apenas o melhor momento para serem dissolvidos em gastos absurdos e farras espetaculares. A mãe, se não a "chefa" da quadrilha, uma cúmplice sorridente - é a única que sorri na foto que ilustra a matéria da dinheirama. A senhora Geddel ainda não morreu, para poder-se culpá-la. A mãe está viva, o resto do bando está vivo e, como desculpa, a mesma ladainha de sempre: réus primários, de bons antecedentes, residência fixa, prisão domiciliar e culpa, mesmo, só depois de trânsito em julgado, isso para não falar nos embargos de declaração, que parece terem ficado mais difíceis. Deve ser terrível ver 50 milhões tão perto e agora tão longe dos bolsos. Que vergonha, minha senhora! E agora, mamãe? Ser herói, ter caráter, mesmo se tiver alguém olhando é mais fácil. De um dos sobreviventes do Everest os dedos foram amputados, mas para cirurgias comportamentais, além das cicatrizes emocionais tardias impossíveis de disfarçar, ficarão os hematomas psicológicos e os pesadelos dentro de um quarto vazio...

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