Coluna

Estrelas Esquecidas: Cintilografia do miocárdio

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 04.08.2018

O telefone tocou. Número desconhecido: - "Oi...! Ainda lembra de mim?". Em um primeiro momento, fiquei em dúvida, mas logo a seguir, o filme passou rápido nas lembranças que guardei com carinho. Era ela, sem dúvida, depois de quase oito anos. Houve mágoa na despedida porque a desculpa da separação fora, de certa forma, ridícula. Tudo bem que as nossas histórias complicadas existiam para atrapalhar tudo. Cada um de nós carregava frustrações em seus respectivos diários de viagens onde registramos as buscas para encontrar a tal alma gêmea, aonde quer que elas estivessem à nossa espera.

Tínhamos frustrações quase gêmeas, cheias de decepções e desculpas. Coisas da vida... E aí, depois de anos de um silêncio pesado, aquele "oi" inocente, mas com matizes de insinuações. Claro que lembrava! Não houve briga, mas discordância sem desconfiança. Para ser sincero, eu não queria, mas precisava. Isso de adiar sonhos só funciona até certo ponto, depois é só desgaste por conta das cobranças implícitas que começavam a evidenciar sutis marcas do tempo na tez morena do rosto macio.

"Tudo bem contigo?". Responder que estava tudo bem seria um balde de água fria naquele "oi" inesperado, mas confessar que as lembranças continuavam doendo como se todo aquele passado tivesse sido ontem, aí seria ridículo. Melhor foi devolver: "E com você...?". Ela deve ter entendido ou deixou pra lá. "- E aí, animado para o eclipse?". Eu nem lembrava. "Ora, ora, estava aqui, pensando no melhor lugar para fotografar...". (Mentira!). Subconscientemente, o lado safado do homem urdiu compulsoriamente uma ideia.

"Me leva contigo? Ops! Ou já tem companhia?". Estava tudo ali, mais explícito impossível: a abordagem, as reações dos dois, as confissões de que ambos estavam sozinhos e disponíveis. "Cheguei antes de ontem... Vou ficar uns dias. Nem avisei que ia chegar, vai ser surpresa. Estou hospedada aqui, naquele hotel...". Como haveria de esquecer? Ninguém esquece certos chuveiros de água no ponto. Nem as molecagens.

"Ok, passo aí às quatro e meia. O eclipse começa mais cedo". Ela riu conivente e aquiesceu. "Enquanto a Lua não dá as caras, a gente toma uma água de coco...". Ora, o que uma coisa tinha a ver com a outra? Nada impediria matar uma sede boba e saudades tímidas, as insinuantes por conta do hiato desses anos. Intimidades se diluem com o passar do tempo, é verdade, até o agradável instante manso de um "oi!".

Fui pontual. Sempre sou. Ela também foi. Quando cheguei à rampa do hotel ela estava lá, de vestido vaporoso a quase cobrir-lhe as sandálias coloridas. Cabelos presos debaixo de um chapéu Panamá. Foi abrir a porta e o perfume dela entrou primeiro. Covardia! Quantas vezes, ó Criador de todas as coisas, principalmente do livre arbítrio, esse mesmo perfume não me acompanhou até minha cama sem graça, enquanto ela voltava para a cama dela sem graça nenhuma?

Beijou-me no rosto e, na confusão das emoções inesperadas, nem retribuí. Vai ver pelo receio de fazer das mãos uma taça e beber-lhe outra vez nos lábios fartos com sofreguidão. "E aí, vamos pra onde?". Essa pergunta ela nunca costumava fazer antes. Já sabia e ficava a me fazer carinho na nuca enquanto nos dirigíamos ao cenário alheio. E dirigi apressado para uma praia mais afastada das luzes da cidade.

Falamos pouco. Deixamos as recordações, saudades, lembranças, tudo, conversando dentro do carro. Vez por outra, olhava de esguelha e lá estava ela, sorrindo. Até pareceu que a Lua não quis ser cúmplice nessa noite especial. Ficou escondida. Estacionei o carro na barraca deserta e caminhamos de pés descalços até bem perto da água. Ela segurou a barra do vestido e entrou até ficar com água até os joelhos, chutando as ondas que se esvaiam em espumas que chiavam.

De repente, falou como se o nosso passado tivesse sido ontem: "Vem, a água está morna, 'ensaboa-me' com as estrelas curiosas de que tanto falas. Abraça-me forte e vem flutuar comigo. Vem logo, outra lua de paixão assim, só daqui a cem anos, quando o equilíbrio perfeito desse alinhamento único nos eternizará nas páginas do livro dos amantes únicos que fomos. Vem e toma-me de novo, sem medo, sem perguntas, hoje sou tua posse voluntária nesse momento, se quiseres. Essa noite é nossa. Somos donos desse momento, diante dessa Lua boba...".

Tive medo, confesso, mas fui. Medo porque meu médico me pediu um exame de cintilografia do miocárdio e seria no dia seguinte. Afinal de contas, um banho de eclipse como esse não se deve adiar. E só em cem anos, quando acontecer de novo, eu já estaria sentindo como é a eternidade. (Esta crônica foi inspirada no eclipse, mas bem podia ter sido baseada em fatos reais).

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