Coluna

Estrelas Esquecidas: às margens do Rio Vermelho

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 14.10.2017

A Long Bien Bridge inexiste como atração turística para um visitante exigente na busca por boas imagens. É feia e maltratada. Pelo menos como lembrança histórica e importância estratégica durante a guerra no Vietnã. Construída pelos franceses entre 1899 e 1902, com a força de mais de 3 mil trabalhadores, ela é a única conexão entre Hanoi e o porto de Haiphong e justamente por isso foi bombardeada muitas vezes pelos Estados Unidos durante essa guerra, e protegê-la era muito importante para o país.

A ponte tem mais de 2 km de extensão e passa por cima do Rio Vermelho. Para testar a recuperação da perna machucada, assumirmos o risco de atravessá-la à pé, debaixo de um sol antipático e clima abafado. Pura bobagem! E bobagem tem custo. Depois de descansar dentro do abrigo simples, mas refrigerado, localizado no meio da confusão das ruas estreitas da cidade antiga, em Hanoi, veio a conta.

Cadê conseguir ficar de pé? Mas foi justamente a bobagem do propósito que me levou até um lugarzinho tranquilo à margem esquerda do sentido da correnteza das águas barrentas para apreciar o lugar e voltar na história. Lá embaixo quase não se escuta o barulho de motores das milhares de motos que cruzam a velha ponte. Existe paz no lugar onde, no passado, e durante muito tempo, sofreu ataques de bombas e metralhadoras, mas não deixou de cumprir, a cada reconstrução, a sua missão.

É debaixo da Long Bien Rouge que corre sem caudal o Rio Vermelho, também conhecido como Hong, Vermelho em vietnamita, e também conhecido como Rio Yuan. Ele nasce no sudeste da China, na província de Yunam, corta o norte do Vietnam, passa por Hanoi e deságua no Golfo de Tonkin, Mar da China Meridional, depois de percorrer 1.776 quilômetros desde a sua nascente.

Pelo menos de cima da ponte parece imponente na imensidão de suas águas que correm sem pressa. Apenas seguem seu curso. Tudo, absolutamente tudo nessas aventuras compridas se encaixa no seu devido lugar de importância no aprendizado constante das lições ministradas com sutileza. A ponte enferrujada, largada à sua sorte, como teste diário de sua capacidade de aguentar as intempéries e o fuxico do passar de milhares de "motobikes", feito sangue metálico e barulhento dentro de suas artérias, uma indo, outra voltando, suportadas por pilastras como soldados de aço gigantes, impávidos através dos anos.

Daí, fiz a volta e fui me acomodar em um banco, deixando a vista caminhar mansa nos horizontes em volta, deixando fluir os pensamentos, as lembranças, imaginando o horário rigoroso que impõe dia lá, onde estão os laços fortes, as companhias queridas, as arengas, as arestas, os vazios deixados assim e os preenchidos às pressas só para não deixar para o dia seguinte. A vista privilegiada da Long Bien Rouge, unindo uma parte de Hanoi à outra metade, me remetia a refletir nas pontes que construí ao longo da vida, sonhando em transportar os sonhos de projetos para uma realidade que sumiu assim, como uma ponte de fumaça ou aquela que ruiu por conta de uma bomba dessas que o destino joga só para rir da gente vez por outra.

E agora estava eu ali, olhando para a velha ponte, enferrujada, deixando fluir o sangue de aço feito de motobikes, transportando essa gente incrível do Vietnam de um lado para o outro e que, em um momento de desafio gratuito, atravessei só para ver até onde tinha forças. Deixei um monte de coisa para trás. Com o joelho doendo e tudo, fiz as malas para o resto do que tinha para ver: Luang Prabang, no Laos.

Luang Prabang, Laos, outubro de 2017.

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