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Estrelas Esquecidas: amizades perdidas

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 07.04.2018

Tenho bem nítida na memória, uma certa manhã, na companhia de meu pai, nós dois, debruçados na janela do corredor que dava para o quarto onde meu avô encerrava seu ritual de despedida. Pai e filho, em compungido silêncio, observavam o rosto sereno de "seu"Antônio deitado placidamente sobre o derradeiro travesseiro quando, de repente, duas lágrimas tímidas escorreram de seus olhos cansados por tanto tempo vivido.

Não tinha notado que ele parara de respirar até que meu pai me fez um afago na cabeça e disse: "Meu filho, acabamos de perder um amigo...!". Crianças, àquela época da minha infância simples, não entendiam o que significava morrer além da troca de um leito por um caixão, gente chorando e cortejo de carros até um lugar chamado cemitério, onde elas não iam, e depois, uma coisa chamada luto.

Não lembro-me de haver chorado quando ele morreu, mas por muito tempo sei que meu avô fez uma falta enorme até acostumar-me com a ausência das histórias que ele gostava de me contar. Depois a gente cresce e tudo fica mais simples quando a experiência única da nossa existência resume-se na compreensão plena do nascer, viver e morrer, sem aviso prévio. Ao longo da vida, modesta ou farta, inserimo-nos em um contexto social fazendo as primeiras amizades - que costumamos lembrar como "meus amigos de infância" -, algumas perdidas naturalmente, outras porque a fatura foi cobrada muito cedo e alguns pelas distâncias geográficas que ficaram compridas e nunca mais voltaram, ou pelas divergências temperamentais, brigas, essas coisas.

Somos o que plantamos a partir das primeiras semeaduras de educação, conhecimento da tabuada, leitura e saber e cultivamos todos os dias, sozinhos ou na companhia de amigos de escola, trabalho e na sociedade, principalmente nos burburinhos dos salões ou em volta de mesas festivas. Um dia, damo-nos conta de que muito tempo já foi amealhado na convivência contumaz e pouco cuidamos de que os cabelos rarearam e ou ficaram brancos. Não importa, não faz diferença porque o que conta mesmo é a alegria das histórias e a descontração das taças ou dos copos.

Se somos o que plantamos, somos também as versões, emocionadas ou não, das histórias que contamos, seja para fazer rir ou puro desabafo quando uma agonia pessoal aflige e carece da atenção de um ouvido, um ombro, um conselho, sugestão ou crítica. Com o passar do tempo, já não se constitui tanta surpresa a notícia de uma amizade perdida. Para quem já descobriu, desde há muito, que a juventude não era eterna, assumir novas faixas e conformar-se com as restrições naturais faz partido pacote.

Quando cumpri meu tempo de responsabilidades diárias, ganhei o mundo, no sentido de não ficar parado, só vendo o tempo passar e ver passar pessoas apressadas ou correndo nos calçadões, malhando, trincando barrigas ou suando para manter contornos e formas que causam inveja, fazem suspirar e até dizer bobagens que hoje podem dar processo. No tempo do meu avô, mesmo sem saber assobiar, sabia que um "fiu fiu" era elogio abrangente a uma mulher bonita e, principalmente, àquelas excepcionalmente privilegiadas pelas formas caprichadas. Mudou tudo. Ficou de ponta cabeça, cabeça pra baixo. Hoje, é assédio, falta de respeito e algumas, de peitos às escâncaras, abominam os assobios, recusam até mesmo "olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça..." e ainda brandem, seminuas, com os corpos pintados: "meu corpo, minhas regras..." e essas regras são rígidas, cobram microfones para discursos inflamadas e desmotivadores.

Desde aquela manhã, quando perdi meu avô, perdi alguns amigos. Poucos, é verdade, porque me descobri um animal solitário nas viagens longas e para cada vez mais distante. Faz tempo desde o último "fiu fiu", mesmo porque, com todo esse tempo, fica ridículo e já faz muito tempo desde muita coisa. É o processo e tentar revertê-lo pode ser arriscado ou inócuo, como pintar os cabelos ou usar creme para apagar rugas; melhor deixar a barba crescer. Desde aquelas duas lágrimas escorrendo pelo rosto do meu avô moribundo, perdi muita coisa, mas ganhei outras tantas.

Elas por elas e ainda hoje alimento a esperança de alguma mudança nos velhos hábitos, como por exemplo, aceitar perder amigos, queridos como meu avô...

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