Coluna

Estrelas esquecidas: Abençoadas tristezas

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 11.03.2017

Um amigo escreveu-me certa vez que "o poeta é antes de tudo um solitário...". Esta frase assegura-se-me uma síntese que exprime a sagrada importância do momento em que esse poeta mergulha em profunda meditação para fazer emergir a inspiração e escolher as suas melhores palavras ou encontrar as suas mais simples rimas.

Nunca fui afeito ao exagerado cuidado com as rimas e a métrica. Faço versos, tergiverso, rimo mundo com Universo e nem me importo se chego se parto, se fico ou sumo, pura e simplesmente. Quantas palavras rimam com amor? Ora, ora: rancor, dor, terror, pavor, andor, pudor, impor por aí. Aponha-se a junção das preposições latinas, de origem controvertida "de" e "ex", ou romantização do prefixo "dis" e ficará tudo ao contrário nos verbos, desamor, por exemplo, mas continua rimando, sem tirar nem pôr.

Deixo as palavras chegarem, entrar sem bater e tomar assento na folha de papel ou na tela iridescente do monitor ou tablet, e se acomodarem nas sequências lógicas a que se propõem ou até mesmo que se camuflem nas entrelinhas onde se explicitam subliminarmente. Ali, podem se fantasiar de segundas interpretações, mas que nunca escapam aos sentidos do bom entendedor e confundam os pobres de espírito ou ignaros, os faltos de instrução.

Nesse momento, o escritor, o poeta, é um solitário, pode esbaldar-se sozinho, vingar-se, insurgir-se, escamotear, blefar, desde que com necessária e imprescindível sabedoria. Não deve deixar-se acometer do receio dos críticos literários, puristas gramaticais, nada. Deve ater-se unicamente aos ditames das suas vontades nos lampejos da inspiração. Dane-se o resto. Às favas as ênclises, contanto que seja respeitado o bom senso.

Bem vindas, ali, as escolhas dos sinônimos ou adjetivos, mesmo os menos usados, aqueles que remetam o leitor a uma incursão rápida ao dicionário, aliás, muito salutar, para exercitar escolha da melhor acepção que a insira na melhor interpretação, como reza a hermenêutica.

No meio de contumaz tertúlia no habitáculo descontraído e festivo, o tema das roedeiras mundanas certa noite voltou à baila. Quem, nunca sofreu por um amor perdido? Quem nunca ficou de fora dos abraços que um dia lhe pertenceram? Quem nunca teve de aceitar, compulsoriamente, o travo da perda inevitável do quarto, da cama, da intimidade e cumplicidade dos diminutivos que um dia fizeram a alegria moleque nas alcovas? Quem, nunca lembrou com insistente saudade dos lençóis desarrumados, testemunhas perfumadas de aromas e cheiros das intimidades interrompidas para sempre? Quem nunca enganou ou recebeu o troco e ficou remoendo, roendo, melhor dizendo?

Por entre as taças à távola, ninguém atirou a primeira inocência. Éramos todos pouco ou muito reincidentes dentro das lembranças recentes ou remotas, inclusive o garçom, cúmplice momentâneo no chiste. A roedeira, tema com lugar cativo por conta da mofa recorrente, sempre nessa hora remeteu a uma reflexão: aqueles que nunca sofreram por amor não viveram!

Descobriu-se de inopino que todos ali tiveram cordas roídas. Todos viveram. Todos eram mortais, foram alvos fáceis e quase estáticos para as flechas certeiras de carrascos travestidos de ternura, formas embriagadoras e magnéticas. Exceções - que podiam existir por alguma conveniência - não entravam no rol. A roedeira, ao contrário de se caçoar dela, o que também não é uma regra, confessá-la e assumí-la chega a ser salutar e pode até servir de bálsamo. Não dizê-la ou escondê-la também não é crime. O que não se deve fazer é ficar triste porque o amor acabou, mas ser alegre porque ele existiu.

Toda tristeza causada por uma roedeira deve ser vista como uma coisa boa, ser bem vinda, festejada e abençoada.

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