Coluna

Estrelas esquecidas: A volta do canto do galo

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 04.03.2017

Havia uma fantasia escondida dentro do armário de uma mulher anônima que morava numa casinha branca no pé da serra. Era a fantasia de uma paixão pelas palavras que colecionava desde muito tempo, um monte delas, e cujas sequências e arrumações estratégicas de quem as escrevia a encantavam e enterneciam. Ela conhecia o remetente, mas o remetente nem de longe sabia da existência dela. Por uma dessas armadilhas que o destino resolve assim, sem nenhuma razão ou apenas para se divertir - sim, o destino também é brincalhão, tem senso de humor -, fez com que a mulher viesse à luz e colocasse diante dela o homem dessas palavras bonitas.

Ah, palavras são mágicas, flechas certeiras que pouco erram mesmo os alvos mais distantes, mais escondidos, mais guardados. E assim, de repente, estavam os dois à curta distância de um clique moderno. Surpresa de um lado, encantamento do outro, confissões nervosas, medos, receios, incredulidade, tudo junto, misturado, inclusive "muito prazer, que emoção, nunca pensei, sinta-se à vontade...". Sonhos eletrônicos, vontades cibernéticas, desejos ardentes escondidos nas entrelinhas lidas e fantasias cheias de arrepios de emoções nunca vividas e nem ousadas conscientemente foram os elementos que só a liberdade da imaginação podia se permitir.

O Carnaval de verdade só aconteceria dias depois desse encontro, e quem haveria de imaginar que foi debaixo de um cobertor onde o frio de uma febre e estação, confessada a título de esticar conversa, fazia tremer seu corpo verdadeiro. E a verdade começou a assumir formas nas confissões dos dois lados, nas descobertas que afloravam e eram atiçadas pelas coincidência inimagináveis. Coisas do destino! Um destino que às vezes se excede nos detalhes só para ficar de longe e rindo dos tombos, dos micos modernos. Assim, a mensagem que falava do frio da febre sob o cobertor remeteu à ousadia de dizer "queria estar aí, cuidando de você", mesmo que fosse difícil voar depressa na distância física da realidade ou apelar para velocidade na fantasia da primeira intimidade.

Do cobertor, passando pela febre, que não se disse que foi curada ao primeiro carinho imaginário proposto e aceito com reservas por conta das convenções reais de uma cidade pequena, à primeira troca de imagens para dar um rosto àquele que escrevia e conhecer aquela que lia foi apenas o tempo de 'vou ali, pegar uma foto, e volto já'. A descoberta da morenice aveludada e que fazia de moldura para a boca carnuda bem posta logo abaixo dos olhos negros, magnéticos, deixava imaginar um certo quê de esconder vontades e desejos aprisionados por um escolha apressada que ficou sem retorno.

Mulher casada na capital tem liberdade, pode ser afoita, ter direito igual, coisas do bateu-levou da atualidade cheia de equanimidades. Nos lugares mais afastados, onde missas fazem vigílias e sermões que cobram, além de óbolos, condutas impecáveis com ameaças de inferno para os pecadores ou das pontas de facas mal encaradas que não aceitam enfeites na cabeça do dono.

Estava armado o cenário. Febre moderna se diminuiu no físico com o analgésico do contexto descontraído, passou a ter temperatura gêmea com as fantasias que afloravam céleres. "E se eu estivesse aí, o que você queria que eu fizesse?". A resposta "que me abraçasse" era a mais óbvia. E foi dada. As palavras guardadas agora assumiam cores e cheiros, quase podiam ser tocadas tamanha era a precisão das descrições carregadas de sensualidade. Lá fora, nas ruas da cidade grande e naquelas da cidade pequena, o folguedo comia solto. Nas telas conectadas, as fantasias de pano estavam largadas sobre a poltrona imaginária e a presunção da nudez cúmplice se materializava na fotografia desfocada do dorso oferecido apenas para provocar e atiçar o fogo que se alastrava.

O Carnaval dura pouco. Certas fantasias precisam voltar para seus armários, principalmente quando o peso do pecado aumenta. Faltava pouco para o amanhecer da grande ressaca. Era hora de cair na realidade. Aquelas cobranças assim, de uma hora para outra, não podiam ser feitas e as supostas dívidas muito menos saldadas. Hora de passar a régua nas emoções e fechar a conta. E assim, chegou a hora de tirar as fantasias, cada um voltou para dentro de seus respectivos armários, todas as conversas foram deletadas. A cidade voltaria ao seu bulício do cotidiano e os galos voltariam a cantar no pé de serra.

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