Coluna

Estrelas esquecidas: A última visão da menina de tranças

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 17.06.2017

Um dia, já no futuro que nunca devia ter chegado, vieram as lembranças da Menina de Tranças, quando ela era real e eu era seu menino mais velho, embevecido, perdidamente apaixonado. Podiam, essas recordações, ter ficado onde precisei deixá-las adormecer e se aquietarem justo no momento em que descobrimos que não havia mais estrada, mais caminho, mais atalho até a realização de sonhos difíceis de serem mantidos dentro dos mais sagrados abraços que nos uniram.

Juntos, conseguimos chegar à beira da montanha da nossa casinha branca de porta e janela para abrigar nossas fugas para ficar até o sol se pôr de muitos dias, mas não havia uma ponte para atravessarmos o vale separado pelo rio caudaloso da realidade que rugia feroz, ameaçador. Foi preciso deixar tudo para trás. E deixei.

Desde esse dia, muitos anos se passaram e foi tanto o tempo que até esqueci do dia da despedida para depois ir embora, procurar horizontes distantes. Quanto mais longe, melhor para frear a vontade de insistir no impossível. O consenso foi uma imposição das verdades nuas e cruas postas sobre a mesa das decisões inadiáveis.

"Cadê a Menina de Tranças? Você nunca mais falou dela..." - cobrou-me um leitor. Pra quê? Pra fustigar memórias acomodadas na gaveta do "melhor esquecer"? Por vários dias, as tranças dela me perseguiram. Até podia vê-las balançando sobre a nuca alva que se enchia de luz à beira do lago, quase nua, só para mim...

Essas lembranças passaram a doer porque me fizeram continuar pagando pelas consequências de ter assumido o primeiro abraço, o primeiro beijo e a primeira cama dela. Puro açodamento emocional, intempestividade pura que bem melhor tivesse sido evitada. Mas basta uma fagulha da figueira das paixões para a explosão dos desejos coincidentes. Numa fração de tempo, quase imperceptível, já transcorreram mil abraços a fundir peles e misturarem-se os suores do "consumatum".

Os dois sorrisos cínicos nos rostos dos dois, voltados para o teto de telha, eram o retrato dos prazeres gêmeos do prazer pleno e absoluto. Se culpa pudesse haver, ficou do lado de fora do portão pintado de azul. Depois, bastava uma troca de olhares cúmplices no meio da multidão que nos era comum e já sabíamos onde nos encontrar e a que horas. Aí, era só pegar a estradinha de areia e seguir para o refúgio onde visitávamos a felicidade e nem ligávamos para o mundo do lado de fora, tão cheio de cobranças, de normas, de regras, de imposições. Que se danassem as convenções!

Nenhuma culpa nos cabia pelo fato de havermos nos encontrado fora de tempo e descobrir que havíamos feito escolhas travestidas de arrependimentos. Tínhamos o direito de rir, sorrir, gargalhar, debochar, fazer molecagem na divisão igual dos arrepios e dos gemidos. E chegou o dia de escrever a derradeira página do nosso livro. Aceitar fechá-lo e relegá-lo a um lugar discreto na estante da vida foi a única alternativa digna imposta pela necessidade de assumir a impossibilidade de devassar para o outro lado da montanha.

A montanha continua lá. A casinha branca foi demolida, e no lugar da estradinha de areia, agora passa uma avenida. Faz bem pouco, o tempo me pregou uma peça depois que me olhei no espelho para pentear os cabelos brancos antes de sair pela cidade. Vi-a do outro lado de uma rua movimentada no centro da cidade. O rosto continuava lindo, o caminhar era o mesmo que deixou rastros comigo sobre as dunas afastadas, mas o destino me impôs ver que a minha Menina de Tranças de um dia tinha envelhecido também.

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