Coluna

Estrelas Esquecidas: A última parcela

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 10.02.2018

Aceitei um produto, tipo uma compra até certo ponto irresponsável, cujo pagamento ficou, compulsoriamente, sob a minha responsabilidade, e que teria de pagar em muitas parcelas, como venho fazendo até hoje. Não mostrava a data da validade, mas a duração de seu uso tinha um certo limite. Não tinha garantia e os defeitos e reparos seriam por minha conta.

O SAC não funcionava. Reclamar, podia, mas providência mesmo, nada! A data da quitação da última parcela seria uma surpresa. Fosse mais atento até poderia observar alguns sinais, como em qualquer produto. Fazer economia para pagar o resto das prestações de uma vez seria uma perda de tempo, pelo menos estava escrito em letras pequenas: Carpe Diem! Ao longo do uso do produto até podia economizar no uso para evitar um possível desgaste. Perda de tempo, e negociar o resto do débito, impossível.

Desistir do produto até podia, porque existia uma cláusula bem explícita do livre arbítrio, mas teria lá as consequências relacionadas com a interrupção abrupta do uso. Se bem que a quebra do compromisso logo perderia a importância pouco depois, data máxima vênia, levando em conta o irremediável e definitivo do contexto. Afinal de contas, mesmo sem anuência, eu era uma consequência e nunca me foi dada a alternativa de recusar, de dizer, peremptoriamente: não! Não quero, não estou interessado!

Na ingenuidade inicial, não conhecia nem mesmo as cores e tampouco distinguia as formas das primeiras visões. Ao longo do tempo, fui me acostumando com a cobrança das parcelas instantâneas. Não diferenciava as mensais das anuais, mas eram cada vez mais pesadas, discreta e silenciosamente pesadas. Reclamar até podia, mas era de pouca valia. Depois de um certo tempo, adveio o costume e o hábito de assimilar algumas das benesses do uso desse produto porque elas se sobrepuseram aos seus defeitos, digamos assim. Desisti de reclamar. Se estava na chuva era para molhar-me; uma consequência lógica. Para o frio ou calor tinha uma solução, assim como para a fome, a dor, o choro, a ressaca. Ah, a ressaca...! A melhor das coisas ruins! Deixei de fazer a velha promessa tola de "nunca mais!" porque sabia que ela só duraria até o próximo pecado bem na borda das boas taças insinuantes, convidativas, prazerosas e divertidas. Ressacas vinham na bula do produto.

Somente os fracos deixam de beber o que deve ser bebido, com ou sem moderação, daí, a ressaca. Assim é a vida, um produto complicado que merece ser celebrado, vez por outra com muito vinho, confete, purpurina, com ou sem moderação. É o tal do livre arbítrio, antes que a última parcela seja cobrada. De surpresa! Assim, Carpe Diem até quarta-feira...

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