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Estrelas Esquecidas — A ternura nos gestos sutis

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 19.08.2017

Cultivar intimidade com as lentes das minha câmaras fez-me desenvolver subconsciente aguçado senso de observação de cada entorno, mesmo com essas lentes adormecidas na mochila cúmplice das caminhadas mundo afora. Sou predador confesso no sentido de devorar imagens às margens dos muitos caminhos sempre fartos, na imensidão quieta de desertos, nas vastidões gélidas de poucas escolhas inusitadas ou de raras buscas e preferências. Aprendi a respeitar as luzes, mesmo as tênues, quando valoradas por oportunas réstias ou sombras dentro de sombras. No aglomerado confuso de lugares da moda, a alegria moleque e irresponsável da juventude me permite focar nos poucos rostos entre o admirado, beirando o quase atônito daquele que só muito tarde deixou o tempo acumular-se e exibir-se no extremo feio da idade, quando a inveja é companheira fiel da nostalgia sem mais jeito e a saudade a se distanciar lentamente. A irreverência das roupas graciosamente curtas traduzem o despudor sadio dos novos costumes como símbolo de uma nova liberdade de expressão física que permite mostrar a exuberância dos corpos bem cuidados sem as críticas radicais dos antigos. Afinal de contas, qual é o problema de uma super minissaia? Qual o pecado de uma calcinha colorida generosamente exibida por conta de rajadas de vento safadas? Quem reclama das transparências de blusas de seda a dar contornos de seios soltos e fagueiros debaixo de um calor infernal? Pois sim, a naturalidade desse comportamento juvenil, adolescente e até adulto, sem despertar a crítica dos exigentes pela exigência do perfeito perde-se no descaso pela inexistência de imagens que se destaquem ou chamem atenção dos exigentes pelo exclusivo. Inserido nesse contexto de burburinho festivo, colorido, cosmopolitano, as objetivas cansaram-se ante a repetição de um quase óbvio circulante, nervoso, passei a buscar um detalhe que fosse para deleitar-me depois analisando minúcias dentro das imagens caçadas. O festival da exuberância, o desfile dos rostos sorridentes, as tranças a balouçar nas nucas perfumadas, o colorido dos laços e dos lenços, tudo muito comum sem perder o encanto em cada canto, em cada esquina. Cansado, ao final do dia, fui parar à mesa de um restaurante mais simples, no final da rua sinuosa e de muitas histórias que datam do medieval e debrucei-me sobre uma taça de branco vinho da casa e fiquei a degustar o sabor das uvas e do entorno. A bem da verdade, no restaurante só estávamos eu e um casal de idosos naquele fim de noite, no fim da rua, no fim da história. Entre os dois não havia a barreira eletrônica intransponível e fria dos celulares nem o exibicionismo de intimidades mais comuns nas camas ou nos discretos recônditos onde os avanços íntimos mais se adequam. Seus olhares não se cruzavam. Eram olhares perdidos em profundas reflexões perdidas nas histórias compridas de cada um em seus mais diferentes e desencontrados capítulos. Não eram olhares de tristeza, não traduziam emoções fossem quais fossem. Eram de passagens de seus passados que um dia se assumiram e caminharam até ali, ante a observação curiosa, mas discreta desse circunstante. Talvez nem tenham notado a minha presença por conta de seus olhos definitivamente cansados e perdidos em pontos diferentes do mesmo ambiente. Tudo em volta estava em silêncio. Por um descuido momentâneo, ao decidir-me por deixá-los a sós, mesmo com todo cuidado o breve arrastar a cadeira pareceu te-los tirado daquela espécie de transe. Nesse instante eles se entreolharam com o cuidado de quem se quer inquestionável bem sem buscar a origem do barulho ainda que discreto. Antes de fazer o caminho até a porta para ir embora, vi quando o homem deu batidinhas carinhosas sobre as costas da finas mãos da senhora e mais tocante ainda, o sorriso de confiança em resposta ao "estou aqui, do seu lado...". Não registrei o momento na memória da câmara, mas na minha retina ficou gravada a epifania, essa manifestação divina que pode ser também a do mais belo e puro sentimento de benquerença que sobreviveu incólume o passar de longos anos. Até ali. Salzburg, Áustria, agosto de 2017.

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