Coluna

Estrelas esquecidas: A pior parte de um pesadelo

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 13.05.2017

Adormeci ao som do Preludio de Bach, Suíte Número 1, para violoncelo. O dia havia sido pesado. Choveu pesado, parou, o sol deu o ar da graça - entenda-se luz - com direito a arco-íris por conta da breve nesga que se abriu e fechou rápido. Caminhei até a academia para ganhar resistência frente ao desafio da aventura que envolve cenários de violência. Sentia-me exceção bizarra entre os que cultivam a melhor forma e onde predominam a vaidade e o narcisismo.

Narciso era jovem e esse tempo escapou-se-me nos anos vividos. Não tive culpa e por isso mesmo não me permitia inveja de quem podia se candidatar às atenções da moça escultural no ritual de aquecimento para suas linhas côncavas e convexas. Tudo protegido pelo tecido fino colado com intimidade à intimidade quase explícita da pele dourada. Não podia ousar nem mesmo na repetição do olhar pouquinha coisa mais atrevido.

Escolhi uma parte e não estiquei o passeio até o decote que insultava, que provocava, mas avisava que haviam novas leis vigentes: "meu corpo, minhas regras!". Melhor obedecer. Pois, sim! Ainda estava sob o efeito calmante dos acordes do violoncelo, mas os esforços exagerados faziam cobranças à vista dos músculos de muitos quilômetros rodados. Não fosse o boné, os cabelos brancos que me restavam seriam delatores da idade exagerada juntamente com o cavanhaque cansado. Concentrei-me com raiva nos desafios de cada exercício. Em momentos assim a raiva ajuda. Li, recentemente, que o primeiro momento do sono é fingir que está dormindo. Nesse caso, não precisei. Ao cansaço físico juntou-se um monte de preocupações e a frustração da visão celestial da moça da academia. Nem sonhar eu podia. A consciência das canas definitivas eram um freio brusco para os pensamentos ou fantasias ousadas. Assumiram as preocupações com os desafios do projeto.

Talvez o tempo pelo mundo fosse exagerado: seis meses por aí, escolhendo destinos aleatoriamente e os horizontes seguintes só depois da linha imaginária. Decidi, faz muito, que me basto nas dificuldades e assumo, mesmo como exageros de ousadia, os riscos de caminhar sozinho e afoito por estradas, caminhos, becos e vielas de paragens desconhecidas, mas não podia fugir da responsabilidade de existir para aqueles que ainda se importam comigo.

A vida é quase uma imposição, mas apressar a partida é quase uma falta de respeito. Assumir os riscos de viver é natural; viver recolhido por escolha pode ser entre covardia ou medo de desfrutar o sol, as flores, enfrentar as feras, cobrar espaços, defender direitos. Já brinquei muito com a sorte ou tenho um anjo da guarda muito cúmplice e brincalhão ou igualmente atrevido e irresponsável. Só acredito em anjos assim, que são afoitos!

No meio do sonho me apavorei... Vi-me longe, sozinho e estava machucado, como aconteceu no Miyanmar, mas agora era pior. Fazia frio, havia o som das metralha, estilhaços assobiando em volta, choro de inocências feridas de morte, gritos, desespero. Não havia como sair dali, não tinha como ajudar, ser solidário. A fumaça ardia nos olhos e não conseguia enxergar nada pelo visor da câmera.

Vi-me protegendo a medalha de alumínio com meu nome, meu tipo de sangue é uma identificação: brazilian photographer! Depois, ficou tudo escuro. Sentia a minha respiração, sabia que estava vivo ou era apenas um sobrevivente com mais uma chance. Era um pesadelo. Queria acordar, mas me dividia entre abrir os olhos e mantê-los fechados. E mesmo com os olhos fechados provei de uma sensação única que é a pior parte de um pesadelo: descobrir que ele é realidade.

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