Coluna

Estrelas Esquecidas: a inveja faz mal

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 18.08.2018

Eu pensei, imaginei, achei, verbos nesses pretéritos perfeitos, remetem a dúvidas que quando dissipadas levam a uma certa confissão de culpa silenciosa, mesmo quando conjugados em conjunto diante do que quer que seja. Pois bem.

Ambientes públicos são palcos, cenários ou passarelas por onde atuam, se apresentam e/ou desfilam pessoas as mais variadas. São destaques, chamam a atenção aquelas que se destacam pela apresentação dentro do figurino certo, beleza, elegância, postura e todo um contexto onde elas se inserem na aura perfumada de suas fragrâncias preferidas.

Às vezes é preciso explicar direitinho para fazer sentido. A noite já havia começado e mal dera tempo de assimilar o ambiente novo. As primeiras taças já haviam sido sorvidas quando ela chegou. Sempre existe uma "ela" que se destaca. Chegou, olhou em volta e ficou-se ali, parada no meio do salão até o garçom abordá-la perguntando o óbvio.

Com a resposta também óbvia, ele a conduziu a uma mesa, etc. E tal. Chamou a atenção, depois de todas as atenções que ela em si chamou, fez-se estranhar o fato de que a mesa escolhida só tinha uma cadeira. Ora, ora, ora... A moça era especialmente linda! Chamá-la de bonita seria sovinice com melhores adjetivos. Vestido curto, como manda a moda em evidência, bem ali, no meio das coxas alvas e pernas bem torneadas, que acabavam dentro de um par de sapatos de salto alto, feito pedestal para o destaque de todo o resto. A partir da cintura, contida em um cinto fino, para cima, um busto sem exagero, debruçado na janela de um decote onde o conteúdo rosado respirava sem pressa, sem ansiedade.

Colo impecável, sem joias ou bijuterias. Não carecia. Boca, lábios, nariz, olhos, cílios, sobrancelhas, tudo absolutamente perfeito. Sentou-se, cruzou as pernas com elegância e permaneceu ali, bebendo um copo d'água. As primeiras impressões foram as de que estaria esperando uma companhia. Não recebeu chamada, não fez ligações nem consultou o aparelho chato. Não demonstrou ansiedade, nervosismo, nada. Voltamos a comentar sobre o novo vinho.

Inclinando a taça sobre o prato era de se ver o rubi acentuado da sua cor. O buquê com um rápido cerrar de olhos podia remeter a frutas com pitada de flores, sei lá. Deixando-o passear sobre as papilas agora exigentes, permitia uma agradável sensação sem afetação. Não se tratava de um vinho exibicionista, mas agradava, inclusive pelo custo benefício.

Bebericar algumas taças uma vez por semana faz bem ao espírito, a alma e faz gargalhar sem alarde, sim, porque seletas companhias sempre descontraídas e divertidas são o recreio noturno para as preocupações em meio às preocupações e a certeza do resto das poucas margens de tempo que sobram ao grupo.

Aqui e ali, eu olhava com a devida discrição para a mesa da moça que continuava elegantemente solitária. Cheguei a comentar que nada é mais triste que alguém sentado a uma mesa de restaurante sozinho, mas não havia nenhuma tristeza na moça bonita, ela se resumia em uma incógnita e misteriosa espera, principalmente porque notei que o relógio já consumira quase uma hora com ela diante de um copo com água. Era imperioso, dentro da minha expectativa, que ela estivesse esperando alguém.

Ninguém entra em um restaurante como aquele, tão deslumbrantemente linda e elegante, para pedir um copo de água. Quase ao pedir a conta para irmos embora, eis que senão quando, chega o deselegante que a fez esperar. Ninguém, em sã consciência, deixaria uma mulher tão bonita à espera por inimagináveis minutos que na minha cabeça pareceram séculos. Vi quando ele se aproximou, dirimindo as dúvidas contidas nos verbos conjugados no princípio e, sem muita conversa, o infeliz abraçou-a, acarinhou-lhe o rosto, bebeu-lha em beijos apaixonados de tirar o meu fôlego e só fazia intervalos para admirar aquela pessoa tão especial.

Se as pessoas fossem perfeitas, não existiriam as palavras desculpe (pelo atraso) e obrigado (por me receber com tanto carinho). Ao me retirar, deixando a casa de Baco e me encaminhar para os braços de Morfeu - digamos, sem segundas interpretações) -, passei bem perto deles e não me faltou vontade de reclamar pelo deselegante atraso. A inveja nos torna atrevidos.

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