Coluna

Estrelas Esquecidas: A força das interpretações

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 21.04.2018

A magia do estado de euforia no eclodir de uma paixão foge à compreensão daqueles que nunca escutaram o canto das sereias ou foram imobilizados pelo olhar magnético das jiboias. Pura retórica, essa arte da eloquência, arte de bem argumentar através da intimidade com as palavras para o bem dizer. Sim, dizer da paixão, indefinida, impessoal e pessoal a um só tempo e que nem aquele envolvido no vendaval dessa emoção forte, avassaladora como uma vaga de tormenta consegue entender ou dela fugir.

Foge-lhe à compreensão mais elementar e quando se dá fé, num lapso de razão, ou se vê momentaneamente em ilhas paradisíacas ou é um náufrago exangue perdido na procela desse sentimento confuso depois que se esvaneceram as cores fortes dos primeiros olhares.

Aliás, primeiros tudo: toques, abraços, beijos e as intimidades das peles a se fundirem nas descobertas do uno delimitado apenas pelos filetes de suor das energias que fluem naquele momento.

Ah, se as paixões fossem eternas...! Mas postas que são chamas, duram apenas a eternidade de cada instante. E aí, advém a calmaria da mesmice preguiçosa, sem forças para fazer caminhos emocionantes ou sem a vontade que acomoda e faz adormecer o felino farto, passada a aventura da caça à presa e o seu abate - nesse caso, consentido. Nesse contexto específico, pouca diferença faz quem abateu quem. Metáforas à parte, entenda-se como melhor se aprouver porque ninguém pode se dizer vítima quando tudo foi consentido, mesmo as cumplicidades mais recolhidas.

Tempos ficam estranhos depois de muito tempo e quando se passa a referir-se desse tempo como "naquele tempo". E aí, nesse momento, tudo é diferente e sem mais jeito. Quem já foi parceiro de uma paixão e a paixão adoeceu e ficou sem forças sabe que a cura não é inventar emoções ou forçar a criatividade. Dar um tempo, nem pensar! O perigo é imenso. Melhor não arriscar. Ou arriscar tudo porque, na realidade, sobrou tão pouco que nem vale a pena. Que pena! É de pouca valia um "mea culpa" ou um tua culpa, sempre cheias de dedos apontados ou defesas frágeis. Falta força, entusiasmo, ânimo, falta tudo, inclusive tudo.

A verdade é que existem consequências nesses momentos de inadiáveis decisões. Sei bem o que são elas. Faz tempo desde que o homem -que fechou a porta e quebrou a chave para reforçar sua decisão de nunca mais voltar - sentiu, no passar das noites, na sua nova cama meio vazia, o frio que só encontrou proteção nas lembranças de um aconchego de conchinha.

Este é o postulado de um homem só, a sua argumentação de um fato admitido sem a necessidade de demonstrar. Pra quê? A sua sentença, exarado por si mesmo, ficou óbvia, embora as versões não expressem verdades claras e absolutas, mas que não dependem de uma determinada teoria.

O postulado das emoções bem poderia ser aceito como um sinônimo de axioma e deveria ser aceito nas confissões que os envolvidos fazem em seus desabafos, sem os debates das interpretações dos ouvintes.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.