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Estrelas Esquecidas: A esposa do chinês

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 21.10.2017

Ela surgiu na recepção de uma dessas paragens que aparecem nas surpresas que sempre estão reservadas ao longo de uma aventura de caminhos imprevisíveis. O cansaço pediu e encontrou repouso ali. O caminho para chegar ao albergue era ruim, mal cuidado, sujo, tinha lama e pedras, mas era de bom aspecto e impunha respeito. Sua voz era suave e seus olhos diminuíram ainda mais de tamanho dentro da moldura amendoada de seu rosto asiático de linhas finas como um desenho de fina arte chinesa. Por acaso, era chinesa. Diria depois.

Era casada com um chinês feio, de corpo fino, uma perfeita antítese ou contraponto na união longe de qualquer resquício de harmonia física. Vá entender além de ele ser dono de uma mina de ouro. Talvez a fadiga carente tenha atiçado a minha imaginação cheia de fome para escrever e inspiração para fotografar uma mulher diferente e achado, em algum breve momento, nessa ocasião da chegada, ter visto uma centelha de cumplicidade na troca de olhares com que nos perscrutamos brevemente. O olhar, nem tanto, mas o sorriso nervoso que a denunciou que tremeu quase imperceptivelmente nos lábios finos irretocáveis como um desenho de pena em nanquim.

Vimo-nos poucas vezes durante a semana em que fiquei no hotel. Sempre de passagem, sem nunca ultrapassar a rapidez de um cumprimento cortês, sem afetação que sugerisse alguma coisa, nada. Era jovem, mas já casada e com um filho em parceria com o chinês feio e dono do hotel, diga-se a bem da verdade. Madame nunca deixou espaço para conversa fiada, mas seus olhares furtivos diziam coisas, mesmo em chinês. Três dias antes da arribação para outro destino, encontrei-a na recepção.

Puxei assunto exatamente por conta da partida iminente. Disse que lhe daria de bom grado arquivo de imagens do hotel do casal que havia feito do outro lado do rio Mekong. Foi exatamente o que disse em inglês. Madame preferiu entender que a estaria convidando para ser fotografada por mim e foi logo respondendo: "Agora? Deixe eu arrumar o cabelo, por batom..." Aquiesci. Era isso mesmo que tive vontade desde o primeiro momento, mas não foi o que perguntei ou sugeri.

Fiz dezenas de imagens de Madame. Ela adorou. Exagerei nos elogios e Madame amou. Agradeceu quase sussurrando: "Thank you!" e piscou os olhinhos já quase piscados permanentemente por natureza desde nascença. Pediu meu e-mail. Dei no ato. Queria que eu mandasse todas as fotos para ela. Disse, para minha surpresa, que gostaria de manter contato. Sugeri que perguntasse ao marido a opinião sobre as fotografias. "Não, não vou dividir com ele...".

Chegou hora de ir embora. Já estava escuro. Madame tinha subido para o seu quarto sem ao menos dizer adeus. Antes de entrar no táxi, arrisquei um olhar para o segundo andar. Uma luz, mesmo fraca, me deu o contorno dela no vidro da janela de onde discretamente me acenou como se estivesse cometendo um pecado. Deu para ver seus lábios se movendo numa despedida cúmplice apenas balbuciada: "Good bye...!".

A história podia ter acabado aqui. Uma tempestade fechou os aeroportos de partida, em Luang Prahbang, e de chegada, no Vientiane, cancelando todos os voos da noite. Teria de retornar ao hotel do chinês. Eu ainda a veria mais uma vez. Aliás, foi ela que me recebeu de volta do aeroporto na recepção, onde fez o meu novo check-in ao lado do marido, que gentilmente me ofereceu uma sopa e foi me levar ao quarto. Por via das dúvidas não a tomei, diga-se de passagem, por via das dúvidas, reforço. Com as culturas alheias e mulheres idem, aconselha-se o bom senso ter cautela.

Luang Prahbang, Laos/Ásia, outubro'2017.

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