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Estrelas Esquecidas: a espada de Adastréia

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 08.09.2018

Existem mágoas fortes, beirando ódios mortais ou quase isso, que hibernam no coração de muitos, frutos de traições, armadilhas ou pura maldade. No princípio, logo depois do golpe desferido, tomam conta o torpor e a inércia moral, esse estado em que a motilidade e a sensibilidade psíquica são reduzidas de tal forma que a vítima não tem consciência exata do que se passa em seu derredor. Passado esse momento, é comum, depois da procela, sentir as dores das feridas pelos golpes desferidos, muitas vezes por pura maldade ou em nome de desculpas que dificilmente encontram explicações.

Sonhos agitados vez por outra impõem lembrarmos o significado de certas cicatrizes na alma e advém a pontada no peito, o cenho franzido com retalhos do filme ruim que nunca acabou. A diferença entre a vingança imediata, o revide instantâneo e a vontade de pagar na mesma moeda, depois de algum tempo ou muito tempo, está em uma muralha de dignidade que protege certos feridos de cobrar o olho ou o dente através de uma armadilha. Quem, de sã consciência, pode dizer que nunca sofreu uma legítima dor assim, sem razão nenhuma para ter sido machucado, só porque acreditou em uma promessa? É bem verdade que existem os "deixa pra lá" ou os "esquece" que tentam apaziguar as dores alheias e suas consequências nos prejuízos morais e sentimentais, isso para não falar no ludíbrio da boa fé que acreditou em promessas nunca cumpridas.

Temos visto, com bastante frequência, nesses últimos tempos, enxurradas de palavrórios oportunos em debates inócuos, em sua maioria, e a falta de argumentos sérios e consistentes, tentando carrear a atenção de ingênuos contumazes ou inocentes profissionais, para investir no replantio das sementes ruins de suas promessas periódicas. E que vendita seria essa, depois de ver sonhos destruídos, valores usurpados, crenças desrespeitadas e esperanças agredidas sem pejo.

Quem haverá de retaliar nossas decepções? Não temos deusas, como Adrastéia - segundo a mitologia, aquela de quem não há escapatória, conhecida também como a deusa da vingança. Embora considerada uma deusa da segunda geração, filha de Nix e que também vivia no Olimpo, representa a vingança divina, punindo toda transgressão dos limites, restaurando a ordem das coisas. Carregava consigo uma espada representando a justiça e uma ampulheta advertindo para o tempo em que ocorrerá o esperado ajuste de contas.

Estamos às vésperas do eclodir de resultados inimagináveis que darão novos rumos, cores e matizes de um novo período de sobrevivência. Dependendo do apurado, alguns poucos podem se dar ao luxo de fazer as malas e mudar para Portugal; os que não, caber-lhes-á aceitar uma nova frustração, desapontamento, mágoas renovadas e esperar pela espada implacável de Adrastéia para vingar o lanho que lhes cortou o sonho alimentado pela teimosia de acreditar na dignidade, no respeito, no combate à impunidade e a corrupção dos valores. Adrastéia, tua espada é o voto sábio, uma segunda opção para a esperança por justiça.

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