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Estrelas Esquecidas: A cura da miopia sentimental

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 24.02.2018

A miopia, no stricto sensu, no seu sentido mais limitado da palavra, nada mais é que um distúrbio de refração em que os raios luminosos formam o foco antes retina; vista curta devido ao alongamento do eixo anteroposterior que o olho ou os olhos míopes apresentam, o que impede a visão nítida dos objetos situado distante do observador.

Já no lato sensu, ou seja, no sentido mais amplo, a miopia sentimental confunde os campos focais da razão, misturando a verdadeira miopia que carece de óculos com hipermetropia grande, beirando a cegueira total. Acometido de miopia sentimental, o indivíduo perde o referencial e de pouca valia tem um amigo-guia a lhe dar direções ou tentar desviar buracos, abismos, portas. Consta que os indivíduos portadores de miopia sentimental tendem à surdez e, em muitos casos, são presas fáceis do alcoolismo, depressão e vontade de morrer.

Portadores de miopia sentimental também podem ser agraciados com milagres que nem precisam fazer promessas absurdas para ser atendidos e, numa fração de segundo, voltarem a enxergar melhor que antes. Conheço um caso, sou testemunha juramentada. Pessoa era apaixonado por outra que chegou a acreditar ser a sua alma gêmea; mais que isso: siamês! Só não era siamês porque aí seriam irmãos e virava incesto. Confissões do tipo para sempre eram bobagem. As promessas eram do tipo "eu te amo até bem depois da eternidade, depois do lugar onde está a Voyager...". E era específico, fazendo contas e mostrando mapas estelares. Para quem não é ligado às coisas do cosmos, a sonda Voyager 1, da NASA, lançada em 1977, já está a mais de 18,3 bilhões de quilômetros do Sol.

Um dia, assim, sem mais nem menos, ela chegou da academia diferente e falou: " Fulano, acho que não dá mais certo! Melhor a gente dar um tempo...". O choque foi brutal, fulminante! Duas horas depois saiu da catatonia. A forma mais conhecida envolve uma posição rígida e imóvel que pode durar horas, dias ou semanas. Uma forma menos extrema de catatonia envolve atividade motora muito lenta. Foi quase pior. Antes de ficar hirto imaginou que dar um tempo podia ser questão de segundos, minutos; exagerando, horas, mas na cabeça dela eram séculos, coisa pra lá da Voyager 1. E não tinha volta.

Sabe um filme que a pessoa pensa que continua, mas de repente a tela escurece e aparecem os créditos? Foi assim. E não deu pra rebobinar e tentar entender o que tinha acontecido. Não tinha parte II, como 50 Tons de Cinza. Fim, caput, c'est fini, the end. Havia um mínimo de dignidade que não lhe permitia mendigar, implorar, pedir por todos os santos ou aquelas mulheres que dizem trazer a pessoa amada em 24 horas. Fez meia volta e nem pediu a escova de dentes de volta.

Fechou-se no quarto, chorou por três dias seguidos e emagreceu cinco quilos. Não tirou os olhos do telefone, acreditando que ela ligaria arrependida. Não ligou. Ele também não. Era apaixonado até os limites da Voyager 1 mas tinha dignidade. Bebeu muito, arrastou asa, roeu corda no fundo do poço. Sobreviveu. E viajou. Foi passar o carnaval no Rio. Não viu graça em nada. Não curtiu nem as disputas do menor tapa-sexo. Nada. Achou a Bruna Marquezine muito magra. Dar um tempo não lhe saía da cabeça.

A casa da prima onde se hospedou estava vazia. Melhor assim. Só queria estar sozinho. Quarta-feira meio-dia, a campainha toca com insistência. Foi atender... Diante dele, Maria Alice, uma prima da prima. Linda, apesar da maquiagem borrada, coberta de purpurina. "Você é a Licinha?" Era! A que lhe deu o primeiro beijo antes do amor para sempre, infinito como a Voyager 1. Abraçaram-se, beijaram-se... E demoraram-se no beijo. Espera, deixa eu tomar um banho! Vou também. E foi. Voltou a enxergar melhor que antes. Milagres existem...

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