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Estrelas Esquecidas: A arte de se dar um tempo

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 15.07.2017

O isolacionismo pode até ser uma postura que recusa uma parceria ou a graça das pantomimas e suas cenas ridículas no auge da euforia entre confrades, mas igualmente vista como a postura do indivíduo que busca o isolamento, ainda que programado e passageiro, para mergulhar em reflexões mais acuradas sobre o vivido e a dúvida do imprevisível a viver. Pode ser também a necessidade de encontrar as melhores explicações para suas piores decepções ou atos que beiraram o ridículo e redundaram em arrependimentos sem nenhuma força para retroceder no tempo para os devidos reparos.

Como sabido, o tempo é implacável, seja nas cobranças físicas, no curso da história, inclusive naquelas que contam sobre sentimentos. Aconteceu? Foi bom? Foi ruim? Se foi ruim e as consequências são pagas com a moeda moral do deboche e os juros pelo ter feito, não ter evitado a decisão naquele maldito segundo mudou tudo.

O isolacionismo pode ser providencial para melhor avaliação do preço exageradamente assumido por conta das coisas do coração ou do comodismo dentro dos valores sociais. Em muitos casos é melhor encenar um sorriso sabidamente falso a demonstrar o desconforto do ódio que ferve nas entranhas e causam azia na alma. No topo da pirâmide, as aparências valem ouro.

No isolacionismo assumido, o paradoxo extraordinário dentro dessa escolha se constitui numa dupla implicação entre aquilo a que se propõe o conflito e a sua própria negação, o que caracterizaria uma contradição insolúvel. Em termos. Nas confusões sentimentais as exceções costumam se sobrepor às regras. São exatamente essas confusões das batidas do coração emocionado que cobram um tempo de vácuo, uma pausa na ópera, um intervalo para respirar onde se possa curtir o ar puro dos lugares onde se pode respirar em paz. Quanto mais distante do furacão, melhor... Quanto mais alto, mais oportuno, mesmo que seja durante a paz aparente do olhar para fora através da cumplicidade de uma janela de avião nos voos longos que parecem intermináveis.

Que importa o destino? Que diferença faz o horizonte seguinte? O que conta é o controle do quanto ficar ou a decisão do partir a qualquer hora. É no isolacionismo desse tempo assumido que se pode olhar para frente sem a preocupação de olhar para trás por conta do inusitado que encontra na curva seguinte, no terminal nunca antes visitado ou naqueles que já conhece. Nesse isolacionismo voluntário a solidão não é destaque nem quase é notada ou sentida, principalmente quando a lembrança dos últimos vestígios de um certo perfume, por exemplo, sumiram como as águas do banho comum quando a fantasia da eternidade parecia real e absoluta. Nunca é, mas é bom acreditar enquanto duram esses banhos do depois. O isolacionismo é a arte de se dar um tempo. Mesmo que seja abstrata.

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