Coluna

Estrela esquecidas: Uma lady de verdade

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 08.04.2017

Em poucas palavras, uma mulher de classe, elegante, fina não escolhe vestidos caros. As grifes da moda as escolhem. Uma mulher assim não mostra, acintosamente, o solado de um sapato assinado por Jimmy Choo, Christian Louboutin, Manolo Blahnick, Walter Steiger ou o popular Louis Vuitton, eles é que agregam valor quando ela vai ao closet e escolhe um deles. Uma lady de verdade, na simplicidade da sua majestade natural, não escolhe, no seu espaço generoso de joias, um relógio Breguet et Fils, Hublot Big Bang ou Patek Philippe Henry Graves Supercomplication só para se exibir. Ela já é a exibição inteira que cala, que fascina, que empolga e não deixa espaço para ninguém perguntar onde ela comprou.

Uma lady não caminha, flutua com elegância. Não atende telefonemas bobos, não faz nem escuta fofoca. Ela só liga quando quer e não se demora. É gentilmente explícita e mansamente desliga sem precisar dizer 'tchau'. Uma verdadeira lady não fala em decibéis, ela sussurra como uma brisa e com um leve sorriso nos lábios sempre divinos. Não acena, apenas aquiesce quase imperceptivelmente com a cabeça. Não atende a "ei!", "oi!", responde a "tudo bem?" porque está sempre muito bem, é algo implícito.

Uma lady nunca está de TPM, mas ligeiramente indisposta. Nunca gripa. Já nasceu com vitamina C no DNA. Pode pegar um jatinho e ir a Nova York curar uma dor de cabeça e voltar pela Suíça, Gstaad, Colorado. Volta por onde quiser, quando quiser e se assim entender. Não precisa de agenda. As agendas suplicam por ela.

Nunca vai a uma loja nem faz propaganda de grifes carregando sacolas famosas. Não precisa fazer nada. Faz porque pode. É o seu jeito mesmo. Champanhe no café da manhã ao meio-dia? Nada da popular Veuve Clicquot, mas qualquer uma da adega enorme: Dom Perignon White Gold, Boêrl & Kroff Brut, sem indecisões. Manda abrir e bebe quanto sente vontade. Tem caixas cheias. Vez por outra, à luz de uma lua brilhante no imenso jardim da piscina, pode beber, na afortunada companhia de quem tiver a chave mestra de seu elegante coração, uma generosa garrafa de Goût de Diamants, de 1,2 milhões de... Libras! Sem espremer a garrafa. Bebe como se fosse a mais pura das águas.

Um verdadeira lady não precisa ser convidada. Ela convida e convida quem quer, quem não fica com ar de bobo hipnotizado por seu diamante rosa adormecido no vale encantador onde seus seios alvos e generosos arfam discretamente. Ela nunca usa diamantes. São eles que têm o privilégio de abraçar seu pescoço indescritível e se renderem, agradecidos, à sua fantástica e generosa preferência.

Uma lady de verdade vai à missa, mas bem podia ter a sua própria Igreja com seus santos verdadeiros e quando se posta genuflexa diante de um altar de Cristo, do jeito que Cristo é e foi, faz as suas preces em aramaico. Porque uma verdadeira lady é inteligente. Sua conversa amena abrange toda uma enciclopédia, vai da origem da vida nas profundezas abissais da Polinésia Francesa aos detalhes da origem do Universo. Entende de física quântica, de tempestades solares, de matéria negra, das distâncias incomensuráveis do Universo. Cantarola canções em mandarim sem sotaque e conversa fluentemente em quinze dialetos indianos.

É capaz de distinguir uma nota fora de tom em uma sonata de qualquer autor interpretado por qualquer maestro. Uma lady de verdade poderia ser candidata a santa. Mas ela mesma, com humildade, recusou a proposta de enviados do Vaticano. Não que se julgue superior. Ela está acima disso, é que existem milhares que pedem coisas idiotas, fazem promessas ridículas e dizem "amém" pra tudo sem ao menos saber o que significa a palavra.

Uma lady é a serenidade em pessoa. Nunca vai a lugar a algum. Ela se desloca e fica. O quanto quer. Suas contas nunca são deputadas. São pagas. Em moeda de ouro com a sua efígie encimando seu nome: EU. Enfim, se você se encontrou em algum ou alguns desses quesitos pode se considerar uma lady, aquela que nunca pergunta as horas porque sabe se colocar como bem quiser nos melhores lugares no tempo e no espaço. Uma verdadeira lady não é desse mundo. Está de passagem. Veio de uma galáxia distante, a milhares de anos-luz da Terra, cheia de gente se achando.

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