Edisca

A força da arte

Um dos expoentes da área social cearense, Dora Andrade é responsável pela Edisca, escola de dança e integração que hoje atende cerca de 400 crianças carentes

00:00 · 03.03.2018
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O cuidado da mãe com o próximo inspirou a bailarina Dora Andrade ( FOTO: SAULO ROBERTO )

O adjetivo "generosa" ela dispensa. Mais do que generosidade, a consciência com o bem-estar e dignidade coletivos estampam a forte atuação da bailarina e coreógrafa na área social Dora Andrade. Idealizadora da Escola de Dança e Integração Social de Crianças e Adolescentes (Edisca), ela abre não só as portas da escola, mas os próprios braços para abraçar e acolher diariamente cerca de 400 crianças de baixa renda.

A preocupação com o outro vem de berço. Filha de um casal de professores, ela teve os primeiros contatos com a causa social muito cedo, especialmente por influência materna. "Minha mãe pegava pessoas das praias, do sertão, que estavam doentes e acolhia em casa pra fazer tratamento. Ela ajudava um mundo de gente", revela Dora. Aos 16 anos, trabalhou com a mãe em um asilo e, durante algum tempo, atuou até como parteira em maternidades. Todas essas experiências parecem tê-la preparado para o que hoje é a sua missão: permitir que, através da dança, crianças e adolescentes possam construir um senso de cidadania e ter perspectivas de vida.

Arte imita a vida

Apesar de ter começado os estudos pela dança clássica, Dora Andrade se encontrou na dança contemporânea, pela possibilidade de abordar temas atuais, que geram inquietações. "Minha relação com a arte só foi resolvida quando eu finalmente consegui unir meu conhecimento de dança com a questão social", enfatiza.

Em meados da década de 1990, a coreógrafa visitou o Jangurussu, então aterro sanitário de Fortaleza. Como ela mesma definiu, testemunhar a miséria daqueles moradores, que disputavam as melhores frações de dejetos, foi uma experiência "catártica". "Sabe quando papelão, plástico, pessoas e porcos, tudo se mistura? Demorava um tempo até decifrar aquela imagem", expõe a coreógrafa.

Entre a distribuição de itens de higiene para os moradores e as campanhas de arrecadação de alimentos, tudo promovido por ela, Dora buscou ajuda externa de pessoas que se recusavam a visitar o aterro, ainda que de carro. O pungente descaso virou combustível para o que vinha a seguir. "Como as pessoas não iam até o Jangurussu, eu decidi levar o Jangurussu até elas". Nascia então o espetáculo de mesmo nome, apresentado pela Edisca em 1995, que posteriormente ganhou prêmios e bateu recordes de público da época.

Inspiração

A paixão de Dora pela Edisca pode ser vista e sentida pelos corredores da escola, em uma única visita. Há troca não apenas de conhecimento, mas de energia e carinho com as crianças. Há incentivo não só puramente através da dança, mas na construção das relações, na preocupação em desenvolver confiança e autoestima em cada um dos alunos.

Os 27 anos atuando no meio social confirmam a crença de Dora Andrade na força da arte como agente transformador de vidas. Sobre isso, ela não deixa dúvidas: "Eu não quero fazer outra coisa da minha vida. É na área social que eu quero atuar para sempre", dispara.

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