Artes plásticas

Xilografia evidencia proteção de animais em via de extinção

O artista chama a atenção para a degradação da natureza, por meio de um trabalho didático

00:00 · 13.09.2015
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A proteção dos animais como baleias e pássaros passou a ser uma preocupação do artista, que vai além do aspecto estético. Com isso, ele insere a arte no engajamento pela proteção ambiental ( Fotos: Demontier Lourenço )
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Um exemplo bem perto da região do Cariri, e que se transformou em arte, é o pássaro encontrado somente nos sopés da Chapada do Araripe, nos locais onde há grande quantidade de fontes de água, que é o soldadinho-do-araripe
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A paixão de Demontier começou depois da sua chegada ao Cariri, vindo de Iguatu com os irmãos

Juazeiro do Norte. A xilogravura com função didática e em prol da ecologia. A preocupação do artista Demontier Lourenço Gonzaga vai além da arte e chama a atenção para a degradação do meio ambiente e a extinção dos animais.

As pesquisas em torno do desaparecimento das espécies trazem a preocupação e ao mesmo tempo inspiram o xilógrafo para voltar a exercitar o traçado na madeira. E não deu outra. Foram desenvolvidas 20 matrizes, com as diversas espécies de animais em via de desaparecer do Planeta.

As "xilos" no tamanho 40cm por 60cm foram concluídas há cerca de um mês. Sem nada programado até o momento para expor o material, ele afirma que tem desenvolvido poucos trabalhos na área. "Seria uma boa ideia que a série fosse debatidas nas escolas, para promover a conscientização das novas gerações", afirma Demontier.

A sua inspiração para a área começou depois da sua chegada ao Cariri. Veio de Iguatu para a região Sul do Estado, e com os irmãos Cícero e José Lourenço se embrenhou na arte. Para ele, sobreviver dessa área não dá, pela falta de maior valorização. O seu tempo mesmo é voltado para a fotografia, profissão que abraçou para sobreviver.

Início

Desde 2002 decidiu entrar no universo da xilogravura e, a pedido do professor e pesquisador, Gilmar de Carvalho, vinculado à Universidade Federal do Ceará (UFC), fez o seu primeiro trabalho, com álbum sobre engenho de farinha. Desde o cultivo e colheita da mandioca, o trabalho comunitário da preparação até a finalização artesanal do produto, nos aviamentos.

Já em relação aos animais, ele disse que, ao ver nos jornais e livros essa realidade do risco de extinção das espécies, decidiu registrar na madeira algo que considera um alerta da natureza ao homem. São 20 espécies indicadas, que podem muito servir para levar aos alunos todo um processo que revela a ação do ser humano, segundo ele, que tem levado a essa resposta de extinção das espécies.

Variedade

Um exemplo da própria Região do Cariri é o pássaro encontrado somente nos sopés da Chapada do Araripe, nos locais onde há grande quantidade de fontes de água, que é o soldadinho-do-araripe. Em risco crítico de extinção, a espécie endêmica da região, isto é, só existe nesse lugar. Principalmente numa área entre as cidades de Crato e Barbalha, onde há uma pequena faixa de Mata Atlântica.

A onça pintada, o veado campeiro, a baleia jubarte e o urso panda estão entre as outras espécies de animais. Além do tatu-bola, tigre, leopardo, tucano, peixe-boi, preguiça, lontra, boto-cor-de-rosa, tamanduá-bandeira, tartaruga, lobo, mico-leão-dourado, arara-azul e o elefante foram reproduzidos. Mesmo com um traço minucioso, ele afirma que demorou em média quatro horas para reproduzir cada uma das matrizes.

Demontier não possui um trabalho muito extenso na área. Já produziu algumas capas de cordéis, e atualmente considera que a arte para ele está mais para um hobby.

O artista teve a oportunidade de chegar na histórica Gráfica São Francisco, que se tornou Lira Nordestina. O local, atualmente em funcionamento no Centro Multiuso, deverá passar por uma reformulação, para o maior fortalecimento do cordel e da xilogravura na região do Cariri, além do rico acervo da gráfica histórica, com equipamentos do século XIX que estarão em exposição permanente.

Inspiração

Para Demontier, a criatividade por meio da arte de talhar na madeira vem de longe. E ele teve como uma das grandes inspirações, o trabalho desenvolvido pelo artista plástico xilógrafo Stênio Diniz, que já esteve expondo as suas xilogravuras em vários países da Europa, sul e sudeste brasileiros. "Ele é um dos grandes xilogravuristas nos quais me inspiro. Considero o seu trabalho muito bom", afirma o xilógrafo. Por cerca de 15 anos, Demontier Lourenço deixou de lado a arte da "xilo" e até morou por um período no Estado de Alagoas. Retornou há cerca de quatro anos ao Cariri e mora em Juazeiro do Norte. Nesta cidade, começou a fazer o álbum ainda no período em que se encontrava na "terra dos marechais".

Acesso

Com essa consciência ambiental, o artista também não baixa sua guarda para requerer maior atenção para as manifestações artísticas regionais e típicas da cultura nordestina. Ele entende que é de vital importância manter a arte engajada.

A sua expectativa é que seja ampliada a discussão em torno da xilogravura e do cordel, para que haja um fortalecimento da arte. Mesmo ainda sem uma perspectiva de programação para expor o seu trabalho mais recente, espera que possa levar às unidades de ensino, ou mesmo programar algo onde os alunos tenham acesso. "É importante que as pessoas, a cada dia, tenham na lembrança a importância de preservar a natureza e as espécies. Não deixa de ser um alerta", avalia.

FIQUE POR DENTRO

Arte tem identidade nordestina

A xilogravura tem a cara e o jeito de ser da cultura nordestina. Em feiras do interior, tão comum é o comércio desse trabalho quanto as cantorias, e os desafios de viola. É uma técnica em que se entalha na madeira, com ajuda de um instrumento cortante, a figura ou forma (matriz) que se pretende imprimir. Após este procedimento, usa-se um rolo de borracha embebida em tinta, tocando só as partes elevadas do entalhe. A xilogravura é muito popular na região Nordeste do Brasil, onde estão os mais populares xilogravadores (ou xilógrafos) brasileiros. A xilogravura era frequentemente utilizada para ilustração de textos de literatura de cordel. Alguns cordelistas eram também xilogravadores.

Mais informações:

Xilogravuras

Demontier Lourenço
Rua Capitão Coimbra, 1071
Bairro João Cabral.
Telefone: (88)3571-4403

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