arqueologia

Tese avalia ano da presença humana

Pesquisa identifica presença do homem no Cariri, a partir de um estudo cuidadoso pelos sítios arqueológicos

22:00 · 18.04.2015 / atualizado às 00:00 · 19.04.2015
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Pesquisadora revoluciona estudo com a inserção social obtida em Nova Olinda ( Fotos: Elizângela Santos )
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Rosiane defendeu na universidade portuguesa uma arqueologia que relata a origem dos primeiros povos a habitar a região, por meio de sua tese de mestrado, passando pela trajetória da Casa Grande como um projeto referencial

Nova Olinda. O homem chegou ao Cariri há mais de 3 mil anos. Essa foi a constatação dos estudos realizados na área da arqueologia na Chapada do Araripe, pela arqueóloga e diretora da Fundação Casa Grande, Rosiane Limaverde, que recentemente defendeu tese de doutorado na Universidade de Coimbra, por meio do Centro de Estudos de Artes e Ciências do Patrimônio. O estudo é um apanhado de mais de 20 anos de pesquisa na região, catalogação de sítios arqueológicos e o trabalho empreendido pela entidade que atualmente tem reconhecimento internacional e conta com um fluxo de mais de 70 mil pessoas por ano, em Nova Olinda. A datação realizada com utilização do carbono 14 e análise feita em laboratório nos Estados Unidos foi concebida com os estudos feitos no sítio Olho D'água, em Nova Olinda, um dos locais especificados para desenvolver sua tese.

O trabalho defendido no final de março chamou a atenção dos avaliadores, pelo empenho com as comunidades, abrangendo o cunho social e educacional, relacionado ao patrimônio. Com isso, obteve nota máxima, com aprovação unânime, distinção e louvor.

Segundo a pesquisadora, a temática explorada "Arqueologia Social Inclusiva, a Fundação Casa Grande e a Gestão do Patrimônio Cultural da Chapada do Araripe" amplia o contexto de atuação da entidade, com uma abordagem diferenciada, como forma de inclusão social e participação das comunidades, além de ter as crianças como protagonistas do processo, e suas famílias, o que Rosiane chegou a denominar de arqueologia da afetividade, com um novo olhar.

Pauta

Depois de montar um laboratório de arqueologia, o direcionamento seguinte, conforme Rosiane, é criar um Centro de Arqueologia do Cariri, com o laboratório, que se encontra na fase de montagem, além de uma biblioteca da área. Será um órgão parceiro da Universidade de Coimbra, em Portugal. Ela destaca a parceria com a sua orientadora, Maria Conceição Lopes, da instituição de ensino superior português, e diz que uma das principais carências na região está voltada para a instalação de um curso voltado para a área.

A arqueóloga tem empreendido uma luta que afirma ser praticamente solitária nesse sentido, principalmente pela importância de a história a ser preservada. Desbravadora, percorreu dos pés de serra ao alto da Chapada, o caminho das águas traçados pelos indígenas, até o rumo das próximas descobertas.

Rosiane destaca que a pauta da arqueologia no Cariri foi iniciada por meio da Fundação Casa Grande. "Até então, o que estava relacionado aos índios era coisa de gente inculta e sem instrução. Era assim que a historiografia do Cariri tratava o assunto", afirma. Com isso, a Fundação passou a ter um olhar primeiramente artístico, musical. Com isso, ela justifica a instituição como o local que foi marco do caminho das boiadas no sertão do Nordeste.

A tese traz o estudo de uma centena de sítios de arte rupestre na região, a partir do sertão dos Inhamuns, como forma de demonstrar a rota traçada até chegar na Chapada do Araripe, por meio do trajeto das águas, conforme a pesquisadora. Para isso, foi realizado um mapeamento dentro dos boqueirões dos rios, identificando todo esse caminho e tendo como referência o sítio Santa Fé, no Crato, por ser o de maior altitude da Chapada. "No momento em que ele foi gravado e pintado, o homem já estava de fato na região", diz.

"Todo esse estudo foi voltado para uma arqueologia social inclusiva. O tempo todo trago esse discurso e essa forma de fazer arqueologia, que procura não ser um fim em si mesmo, mas um meio de inclusão social, em desenvolvimento da comunidade, conscientização e que traz uma solidariedade entre as pessoas, que a Casa Grande vem construindo", explica.

Na região da entrada do Araripe, entre a serra da Ibiapaba, sertão dos Inhamuns, até chegar ao Vale Oeste, foram identificados 53 sítios, número considerado representativo para a região. Ela também avaliou a entrada pelo Vale Leste, vindo pelos rios, e também pelo Norte. O estudo não descarta a possibilidade de existência de outras inscrições rupestres na região.

Marco

O casal de artistas que criou o projeto da Casa Grande e atualmente preside, Rosiane Limaverde e Alemberg Quindins, mergulhou numa trajetória de conhecimento dos primeiros habitantes da região, embrenhada de histórias mitológicas. Na mais antiga casa da cidade, um marco do caminho dos aboios sertanejos hoje sedia o projeto do Memorial do Homem Kariri. São centenas de artefatos indígenas encontrados na região, que são expostos à população. Exemplares que demonstram a existência dos antepassados, que fez com que Rosiane decidisse estudar mais a fundo.

O projeto de educação patrimonial serviu de referência para a criação das Casas do Patrimônio, projeto que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Patrimônio Histórico e Artístico nacional (Iphan), e, por dois anos, de 2009 a 2011, período que vigorou um convênio entre a entidade e o órgão federal, faz da Casa Grande pioneira com o modelo de trabalho. O projeto da organização não governamental Fundação Casa Grande atua em vertentes da comunicação, com o protagonismo juvenil e de crianças, além do turismo comunitário com famílias da cidade de Nova Olinda, sendo um dos pontos turísticos mais visitados do Cariri. .E.S

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