Culinária

Temporada de cata do pequi já desponta com queda na safra

Catadores chegam a afirmar que, em menos de duas décadas, houve uma redução de pelo menos 50% na produção

00:00 · 14.02.2016
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Da fruta, também é extraído o óleo, o produto derivado mais caro ( Foto: Elizângela Santos )

Jardim. Será aberta, nos próximos dias, a temporada da cata ao pequi para dezenas de famílias de agricultores que, nessa época do ano, aproveitam a safra do saboroso fruto do Cerrado, para acrescentar no orçamento familiar. Eles ficam às margens da CE-060, neste município, a 20 quilômetros de Barbalha. O local é estratégico para as vendas, que acontecem há vários anos na área, durante essa época do ano.

Os catadores passam a morar por cerca de quatro meses na floresta. Até quando durar a safra. As famílias ficam alojadas em barracões de taipa. O local já contou com um número bem maior de agricultores. A cada ano, a quantidade de pessoas tem diminuído, em função da queda na safra.

Eles chegam a afirmar que, em menos de duas décadas, houve uma redução de pelo menos 50% na produção. Mas, mesmo assim, aos poucos que ficam, resta a recompensa na forma de pratos saborosos, como a pequizada, baião-de-dois com pequi, e outros temperos à base do fruto, muito apreciado nessa região do Estado.

São cerca de 15 casas de taipa construídas na área. O agricultor Odailo José de Sousa, 41, desde criança participa do acampamento. Durante a semana, esteve no local, com o seu filho, Osmar Martins, 18, para finalizar o barraco que vai abrigar ele e mais dois filhos. No fim de semana, chegam mais dois, que ficam estudando, para auxiliar nos serviços. Todos dormem no pequeno espaço, de cerca de 15 metros quadrados.

A maioria dos catadores de pequi vive no Sítio Cacimbas, também no município de Jardim. Todos plantam o roçado, aproveitando período de chuvas na região, e sobem para a Floresta Nacional (Flona) do Araripe, onde desenvolvem as atividades de coleta, seguindo orientações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio). Chegam a ceder alguns pequis para que novas mudas sejam cultivadas na floresta, mesmo com o aproveitamento reduzido dessas plantas.

O presidente da Associação dos Catadores, Pedro Martins dos Santos, resolveu cultivar mudas, em um viveiro de mudas da comunidade. O resultado desse trabalho é que algumas árvores já produzem frutos. Em seis anos, normalmente, isso acontece. No ano passado, das duas mil plantadas, apenas 1.500 nasceram no viveiro, mas a realidade é que, quando são transferidas para a floresta, são poucas as que sobrevivem.

Tardia

A coleta neste ano acontece um pouco mais tarde. Isso porque não teve safra para os catadores se alojarem na mata já em janeiro, como acontece praticamente todos os anos. O período de cata deve se estender até o mês de maio. "Não é muito comum. As primeiras chuvas chegaram mais tardias e, por isso, teremos que ficar por mais tempo", diz.

O agricultor chega a recolher, na floresta, cerca de 1.500 a dois mil pequis por dia. A saída de casa para coletar o fruto tem que ser ainda pela madrugada, por volta das 4h. Os catadores percorrem, em média, 10 Km nas trilhas da Flona, para encontrar os pequizeiros cada vez mais distantes. Retornam com sacos pesados nas costas, para iniciar a venda à beira da CE-060.

O agricultor acredita que, neste ano, o pequi seja comercializado a R$ 15, o cento. O óleo ou azeite produzido pelos catadores, a partir do caroço do fruto, é bastante procurado. Mas, além de exigir o esforço na fabricação, requer milhares de frutos para dar um bom resultado. O litro normalmente é comercializado a R$ 60. Para conseguir uma lata de 18 litros, é necessária a fervura de cerca de 12 mil pequis. Com o esforço concentrado da família, ele afirma que chega a obter de rendimento por mês em torno de metade de um salário mínimo, em média R$ 450. Neste ano, a safra parece não ser muito boa, e um dos sinais para ele é queda da floração.

Festa

Dona Maria Santa da Cruz, 77, não deixa de ir ao acampamento, onde a maior parte das pessoas é da sua família. São filhos e netos. "Para mim é um momento de festa. Mesmo não indo mais para a floresta, permaneço aqui, no acampamento", afirma. Desde que casou, com 12 anos, ela vai para o local.

Durante essa semana, ela já veio inspecionar o seu barraco. Mesmo a contragosto das filhas, que não veem necessidade de a mãe ter que ficar na floresta, a agricultora diz que estar ali é um dos maiores motivos de alegria da sua vida. "Quando era sadia, não tinha uma pessoa para pegar mais pequi do que eu", diz. Dona Maria Santa chegava a reunir até 400 pequis por dia.

A preparação do óleo do pequi é uma das especialidades da agricultora. Tem uma ciência, segundo ela. "Se chegar gente que não tem o sangue bom, não rende e nem dá o ponto", afirma. É um dia inteiro de serviço. Após cozinhar o caroço, ralar o produto, lava e depois vai mais água no tacho, fogo para subir a fervura e ir retirando o óleo.

"A gente enfrenta porque é pobre e precisa, mas dá muito trabalho", diz. E a safra do fruto mais esperado do ano na região do Cariri termina em comemoração. A festa do pequi marca o fim da colheita. Forró, comida típica, e, é claro, iguarias dos povos da floresta. (E.S.)

Mais informações:

Associação dos Catadores

De Pequi

Centro -Crato

Telefone: (88) 3555- 5014

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