Agricultura de sequeiro

Sem chuvas, lavouras têm perdas

Os agricultores se mobilizam para buscar meios que minimizem os impactos causados nos cultivos agrícolas

00:00 · 28.02.2016 por Elizângela Santos - Colaboradora
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Nas roças, a expectativa é de prejuízo na colheita de milho e feijão ( Fotos: Elizângela Santos )
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Muitos produtores já lamentam o fato de terem plantado no começo das chuvas de janeiro e agora veem o todo o trabalho no campo comprometido

Missão Velha. Agricultores do Cariri já registram perdas nos cultivos agrícolas com a falta de chuvas. E as perspectivas já não são tão otimistas pelos indicadores da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). O último prognóstico deu a probabilidade de chuvas abaixo da média histórica de 70%, válido para os meses de março, abril e maio.

A previsão de ficar acima da média, nesta quadra chuvosa, é de apenas 5%. O mês de janeiro superou as expectativas e esteve acima da média para muitas cidades, mas fevereiro está fechando sem praticamente ter precipitações e as plantações estão com lagartas e secando, gerando prejuízos aos produtores da região.

Os sindicatos de agricultores estão se mobilizando para buscar alternativas que minimizem os impactos já causados pela falta de chuvas, que se acentuou, principalmente, no mês de fevereiro. Nos reservatórios da região, segundo números da Companhia de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Estado (Cogerh), a exemplo da Bacia do Salgado, não houve praticamente ganhos.

A distribuição de sementes do governo do Estado foi antecipada no Cariri neste ano e entregue antes mesmo do lançamento oficial do Projeto Hora de Plantar, que repassou aos agricultores, em grande parte das cidades da região, 262. 580 mil quilos grãos, beneficiando cerca de 9 mil agricultores.

Desoladora

A finalidade dessa antecipação era justamente não perder mais tempo, já que as chuvas vieram desde o começo de janeiro. A entrega ocorreu por meio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), começando pelos municípios de Crato, Juazeiro do Norte, Jardim e Barbalha.

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) do Crato, Antônio Alves da Gama, o Tota, essa realidade tem sido desoladora para os produtores rurais e muitos deles estão perdendo totalmente o roçado pela falta de chuvas.

Segundo ele, as perspectivas são poucas e agora é apelar por chuvas no mês de março. Ele, junto com outros dirigentes de sindicatos da região, fez coro para que as sementes fossem distribuídas de forma antecipada para não perderem as precipitações registradas em janeiro.

O Cariri é a região do Estado em que as precipitações da pré-estação se apresentam primeiro, normalmente sendo registrado prognóstico de quadra chuvosa a partir da segunda quinzena de fevereiro. "Mas, o costume do agricultor na região é iniciar o plantio com as primeiras chuvas", diz o presidente do sindicato, ao solicitar do governo a distribuição das sementes antes mesmo dessas previsões.

Ele ainda disse que, possivelmente, nos próximos dias, caso não chova, não haverá aproveitamento dos plantios realizados na região. Conforme Tota, as sementes distribuídas neste ano foram poucas e quem recebia milho não ficava com o feijão e da mesma forma para quem optava pela segunda opção. "Ainda não tinha visto como ocorreu este ano. Além de pouca, agora tem a questão da falta de chuva. Sempre digo que a Funceme tem as previsões certas quando diz que é irregular, mas não tem autoridade para falar quando o povo vai plantar. Isso quem tem que dizer é o produtor", afirma Tota.

Acúmulo

O armazenamento da água em reservatórios do governo era uma das grandes expectativas dos pequenos produtores. Alguns deles, como o Tomás Osterne, em Crato, teve sua capacidade de armazenamento reduzida e se aproxima do volume morto.

O gerente regional da Cogerh, Alberto Brito Medeiros, afirma que a Bacia do Salgado praticamente não teve ganhos. Ele dá o exemplo do Açude Lima Campos, em Icó, que conseguiu um acúmulo de 5 milhões de m³ de água e perdeu 2 milhões de m³ desse volume.

No caso do Cariri, o Açude Tomás Osterne, em Crato, até o começo da semana estava com 4 milhões de m³, com 12,8% de sua capacidade; e o Manoel Balbino, em Juazeiro do Norte, atualmente usado somente para abastecer o Município de Caririaçu, que entrou em colapso no abastecimento, se encontra com 3,95 milhões de m³. No fim do ano, estava com 7,21% de sua capacidade.

Perdas

Uma das cidades que, nos últimos anos, tem reduzido a quantidade de área plantada de milho, Missão Velha já foi a que mais se destacou na região por esse tipo de cultivo e grande produtividade. As perdas já são lamentadas pelos agricultores. Em grande parte do milho já há presença de pragas e a terra está praticamente seca. Para o presidente do Sindicato local, Cícero Honorato, é lamentável vivenciar mais um ano de seca, com prejuízos incalculáveis para a agricultura local. No ano passado, a perda foi de mais de 50% da produção.

A falta de perspectiva, conforme o presidente do Sindicato, tem levado os agricultores a investirem no plantio irrigado de banana. Nos últimos anos, houve um crescimento nessa modalidade de cultivo, que vem abastecendo a própria região e há comercialização para outros Estados vizinhos.

Ranking

Por vários anos, a terra que tem como padroeiro São José foi uma das maiores produtoras de milho, não só do Cariri, mas do Interior do Ceará. Atualmente, o presidente do STR afirma que nem sabe como se encontra essa posição. "Os reservatórios estão secando e há uma necessidade de mobilização, para se pensar políticas públicas que atendam o homem do campo", diz.

Erro feio

Para Tota, do STR de Crato, a Funceme errou em janeiro, dizendo que não tinha chuva, e houve, além de divulgar que teria precipitações na segunda quinzena de fevereiro, o que não ocorreu, desfavorecendo o plantio e causando tensões para o agricultor diante da dúvida.

"Acredito na ciência, mas, para o agricultor, começou janeiro, é tempo de inverno", diz ele, ao acrescentar que ainda há esperança de boas chuvas neste ano. Ele acredita que, caso não chova até este domingo, muito da produtividade poderá se perder.

Os representantes dos sindicatos regionais afirmam que, de qualquer forma, mesmo ocorrendo chuvas para os próximos dias, há uma significativa perda na qualidade e comprometimento da produção, que acaba sendo prejudicada pela insuficiência de chuvas.

O milho e o feijão estão numa fase de crescimento onde a água se torna indispensável para o crescimento da planta e, consequentemente, uma boa produção no âmbito da agricultura de sequeiro. Caso isso, ocorra será mais um ano de prejuízos para o pequeno produtor rural, que ainda se mantém da crença de sobreviver no campo por meio da agricultura familiar.

Enquete

Qual a esperança para a safra?

"O milho e o feijão que plantei no começo das chuvas de janeiro já estão perdidos. As plantas foram tomadas pela lagarta. Agora é esperar chover de novo e plantar tudo novamente para ter alguma produção". Francisco Ivan Oliveira Maciel - agricultor

"O milho que eu plantei acabou-se todo. Nunca tinha perdido um roçado como nesse ano, apesar das chuvas em janeiro. Isso deixa a gente muito desestimulado. E é porque não falhou uma cova". Antônio Dias Ferreira - agricultor

Mais informações:

Escritório da Ematerce
Telefone: (88)3521-2835
Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Crato
Telefone: (88)3523-3809

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