Qualidade de vida

Saneamento básico está defasado

A precariedade no serviço de esgotamento tem-se agravado com a expansão imobiliária em Juazeiro do Norte

00:00 · 06.12.2015 por André Costa - Colaborador
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Águas servidas escorrem pelas ruas do bairro João Cabral, impactando na saúde ( Fotos: André Costa )
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O Seminário foi oportunidade para o lançamento da campanha para sensibilizar moradores para a interligação à rede de esgotamento sanitário

Juazeiro do Norte. A região do Cariri vive franca expansão, sobretudo as cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha, que compõem o triângulo Crajubar. Junto ao crescimento econômico e demográfico, surgem problemas estruturais, presentes em grandes centros, como é o caso da ausência de saneamento básico. Apesar dos investimentos na expansão dos sistemas de esgoto, existe uma resistência da população em utilizar a rede.

Um estudo realizado, no ano passado, em conjunto com a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Estado do Ceará (Arce), Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), Ministério Público do Ceará (MP-CE) e Instituto Trata Brasil, demonstrou redução na qualidade das águas subterrâneas, principal fonte de abastecimento da área. O declínio da qualidade foi apontado em função da presença constante de nitrato nas amostras recolhidas, indicando a existência de poluentes na água.

A má qualidade pode ser justificada pela infiltração das fossas domésticas, bem como pela existência de esgotos lançados a céu aberto. Os mesmos estudos apontaram traços de metais pesados, provenientes possivelmente das atividades da industriais que atuam principalmente em Juazeiro do Norte.

Debate

Para discutir os avanços e desafios do esgotamento sanitário no Cariri, os órgãos se reuniram no início da semana que passou, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) - Campus Juazeiro do Norte. Durante seminário, o presidente da Cagece, Neuri Freitas, lançou a campanha para sensibilizar moradores para a interligação à rede de esgotamento sanitário. A campanha visa conscientizar a população para a utilização do serviço na garantia de saúde, preservação dos mananciais e valorização da cidade.

Atualmente, dos 35% dos sistemas disponibilizados em Juazeiro, apenas a metade das residências está ligada. Em Barbalha, a sede do município está com disponibilidade em sua totalidade, porém, o número de residências ligadas aos sistema de coleta é ínfimo. Para alavancar o serviço, equipes da Gerência de Responsabilidade e Interação Social (Geris) da Cagece irão realizar visitas para orientar os moradores, distribuindo materiais educativos com instruções sobre como fazer a interligação à rede coletora da Cagece e os benefícios obtidos com a ação.

No entanto, algumas ações de sensibilização já foram adotadas pelo Ministério Público, como a "Carta Cariri", entregue em 2013 aos moradores já beneficiados com rede de esgotamento, que alerta sobre a necessidade da interligação para evitar contaminação de mananciais devido ao descarte inadequado do esgoto produzido pelos imóveis. A Procuradora de Justiça do Estado do Ceará, Sheila Pitombeira, avaliou como positivos os avanços da "Carta Cariri" conquistados nos últimos meses.

Problemática

Segundo a Arce, um dos principais desafios para se atingir a universalização do saneamento básico é fazer a população se conscientizar da necessidade de terem suas casas interligadas à rede de esgoto. Em contrapartida, segundo pesquisa do Instituto Trata Brasil, "mesmo tendo consciência da importância de contar com os serviços, grande parte dos usuários não pagaria para ter o domicílio ligado à rede coletora de esgotos".

De acordo com relatório da Carta Cariri, "é urgente a necessidade da expansão das redes de coleta e tratamento de esgotos nas cidades do Cariri". "É fundamental que a população já coberta com redes de coleta se conecte a essas redes", disse o presidente da Cagece. Somente em Juazeiro do Norte e Barbalha, há 48.800 imóveis com rede de esgotamento disponível. Desse total, quase a metade continua lançando dejetos nas ruas e nas fossas, poluindo o lençol freático.

Impacto

Além da qualidade do lençol freático, a ausência de saneamento básico na Região impacta também grande parte da população, principalmente por conta da exposição dos moradores a doenças de veiculação hídrica. A maior parte das doenças existentes está diretamente ligada ao esgotamento sanitário inadequado. Estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estima que 65% das internações em hospitais de crianças com até dez anos de idade sejam provocadas por enfermidades provenientes da deficiência ou inexistência de esgoto e água limpa.

O alto índice de doenças pode ser justificado pela quantidade de pessoas que vivem às margens de esgotos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Censo 2010, aproximadamente 300 mil pessoas da Região Metropolitana do Cariri, de um total de 564.478 habitantes, convivem com os esgotos a céu aberto.

A Cagece lembra que o esgotamento sanitário em qualquer área urbana é fundamental para a garantia da saúde. A coleta por meio de uma rede própria é importante porque evita a contaminação do solo, águas subterrâneas e outros mananciais que são importantes fontes de abastecimento de água. Além disso, o uso de fossas sépticas ou o despejo indevido em ruas e outros locais aumenta a probabilidade de risco à saúde da população por contaminação pelo esgoto.

FIQUE POR DENTRO

Esgotos poluem as bacias sedimentares

Devido à localização na Sub-bacia do Rio Salgado, a Região Metropolitana do Cariri (RMC) possui um grande potencial hídrico em relação às outras bacias sedimentares do Estado, sendo considerada a mais importante fonte de abastecimento, tanto para a população urbana quanto para as comunidades rurais.

Cidades como Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha têm, atualmente, o seu abastecimento público majoritariamente por meio de poços profundos ou fontes. Desta forma, poluição hídrica por esgotos pode vir a interferir na qualidade da água, podendo acarretar, entre outras coisas, problemas na saúde da população.

Há 14 anos a Arce atua na regulamentação e fiscalização dos serviços de água e esgoto no Estado, avaliando os sistemas operados pela Cagece. A fiscalização envolve uma série de etapas e procedimentos, nos quais a Agência verifica o cumprimento de aspectos que avaliam a produção, tratamento, adução e distribuição, além do controle e qualidade da água, com base nas leis, normas e regulamentos aplicáveis à prestação dos serviços.

Mais informações:

Arce

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Telefone: (85) 3101-1027

Cagece

Telefone: 0800 275 019

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