Religiosidade

Romaria do Caldeirão reúne 3 mil fiéis

Evento religioso se tornou tradição, numa homenagem a uma das experiências místicas mais marcantes

00:00 · 20.09.2015 por Elizângela Santos - Colaboradora
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Evento acontece numa área de onde os seguidores foram expulsos e exterminados ( Fotos: Patrícia Silva )
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A celebração acontece de frente à Igreja Santo Inácio de Loyola. As comunidades que participam são de Crato, Juazeiro do Norte e de Barbalha, dentre outras

Crato Caravanas de várias cidades da região começam a chegar logo cedo, para a acolhida inicial no lugar de uma das experiências mais bem sucedidas de vida em comunidade que se tem conhecimento, no sertão Nordestino. No local, de onde as famílias foram expulsas e exterminadas, hoje terá lugar para celebração. É a 16ª Romaria das Comunidades ao Caldeirão do Beato José Lourenço, que neste ano tem como tema "As CEBs na Teia da Sustentabilidade". O evento deverá reunir mais de duas mil pessoas, no Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. A acolhida dos participantes acontece a partir das 7 horas de hoje, com uma missa às 8 horas.

O evento tem se tornado tradicional e a cada ano atrai mais pessoas. Segundo o coordenador, padre Vileci Vidal, todo o trabalho de articulação para a realização da romaria foi realizado há vários meses, e estarão presentes não apenas comunidades de Crato, mas de outros municípios da região.

A celebração acontece de frente à Igreja Santo Inácio de Loyola. As comunidades que participam são de Crato, Juazeiro do Norte, de Barbalha, Brejo Santo, Milagres, Assaré, Altaneira, Lavras da Mangabeira e, neste ano, conta com as CEBs de Iguatu, que vão estar em assembleia sexta e sábado no Cariri e estarão no encerramento neste domingo.

Sustentabilidade

Em toda romaria há uma temática, conforme padre Vileci, e, neste ano, a reflexão estará voltada para o desenvolvimento sustentável para que as comunidades possam trabalhar e firmarem-se como ecológicas.

"Há milhões de anos, as pessoas conviveram em comunidades sustentáveis, com uma relação com a natureza, e desenvolvendo uma diversidade cultural e uma estrutura social de apoio cooperativo na luta pela sobrevivência", explica.

Nesses locais, diz padre Vileci, havia os modelos de sustentabilidade desenvolvidos pelas milhares de comunidades, que a gente chama também de ecovilas, e trazem essa relação de uma vila sustentável com as dimensões social, espiritual, ecológica e cultural. São pilares que vão fomentar a discussão sobre comunidade sustentável.

O próprio Caldeirão, conforme o padre, inspira isso, como comunidade ideal. Para a romaria, foi iniciado um trabalho de articulação com as localidades para se organizarem em caravanas, e estarem neste domingo naquele local.

Após a missa, haverá uma apresentação do grupo Raízes do Caldeirão, de jovens do Assentamento 10 de Abril, dando início ao jubileu de 25 anos deste local, que vai até abril de 2016. Outros grupos de tradição também se apresentam, como os bacamarteiros de Juazeiro, e depois ocorre a partilha de alimentos, como parte integrante da romaria.

Histórico

A romaria começou em 2000, quando a Diocese do Crato fazia o plano de ação pastoral e colocava algumas celebrações, como marco da passagem do milênio. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) inseriu essa celebração como um dos atos, no Caldeirão, tendo como objetivo o resgate da história da comunidade. Uma avaliação com as CEBs nessa celebração fez com que fosse possível a continuidade dessa manifestação religiosa.

A temática desse ano foi escolhida durante encontro das dioceses de Crato, Iguatu e Crateús, em que houve debates sobre essa questão da teia da sustentabilidade, e o compromisso para se afirmar na Romaria do Caldeirão, de como criar uma unidade de proteção ecológica na comunidade, planejar adequadamente a gestão ambiental, para promover mudanças de atitude, como um processo de educação ambiental, além de manter experiências já existentes de baixo impacto ambiental nas comunidades. "São indicativos para serem assumidos nesta romaria", destaca.

Fazer o caminho do Caldeirão é uma forma de reavivar na memória umas das experiências exitosas em comunidade rural, que terminou em tragédia e no sumiço de centenas de pessoas, entre crianças, adultos, idosos. Trabalhadores rurais, homens simples e que tinham como líder o Beato José Lourenço, um discípulo do Padre Cícero. Era uma ameaça ao sistema. Um foco comunista num rincão distante do sertão nordestino. As milícias do Exército Brasileiro e Polícia Militar do Estado agiram. Oficialmente cerca de 400 pessoas foram assassinadas. Extraoficial, mais de mil, com ataques aéreos.

Importância

O momento é dedicado às vítimas em oração. O evento conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Crato, além do projeto Territórios Criativos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), Levante Popular da Juventude, Associação Cristã de Base e Sindicato dos Trabalhadores Rurais, com a realização da Diocese do Crato - Comunidades Eclesiais de Base, Pastoral da Romaria e Ministério da Caridade, movimentos vinculados à Igreja Católica.

O mês de setembro tem um significado importante. Foi o período de expulsão dos moradores, no ano de 1936. Foi uma experiência de 10 anos, no local, sob a liderança do beato. A reza e o trabalho davam autonomia de sobrevivência no que se transformava num oásis em meio ao deserto. É sempre no domingo, após a procissão de Nossa Senhora das Dores, que acontece a romaria do Caldeirão, já que a intenção dos organizadores é também possibilitar que os romeiros do Padre Cícero, que vão ao Juazeiro, possam conhecer a vida de um dos discípulos do "padim" e a história do local.

São cerca de 32 quilômetros saindo do Crato para se chegar até o local. A terra foi ofertada pelo Padre Cícero ao beato, que tinha sido expulso do Sítio Baixa Dantas. A comunidade mostra o exemplo, conforme o padre, de que é possível conviver com o Semiárido, por meio do desenvolvimento sustentável. "O Caldeirão é um exemplo de vida saudável com a natureza", afirma. O padre destaca a importância de um projeto que esteja relacionado com a realidade local, a arquitetura, para que a memória seja preservada.

Liderança

O Caldeirão foi palco da vida e obra do Beato José Lourenço. No local aconteceu um dos movimentos messiânicos mais significativos da história do Nordeste, acontecido em terras cearenses. A comunidade, formada por cerca de mil pessoas, era liderada pelo paraibano de Pilões de Dentro, José Lourenço Gomes da Silva, mais conhecido por Beato Zé Lourenço.

No Caldeirão, os romeiros e imigrantes trabalhavam todos em favor da comunidade e recebiam uma quota da produção. A comunidade era pautada no trabalho, na igualdade e na religiosidade, sob as bênçãos do Padre Cícero Romão Batista.

Em 1936, a tragédia. Famílias inteiras mortas foram enterradas num valado, local até hoje desconhecido. Suspeita-se que na Mata dos Cavalos, na Serra do Cruzeiro, na região, ou no próprio Caldeirão. José Lourenço chegou a fugir para Pernambuco, onde morreu aos 74 anos, de peste bubônica, tendo sido levado por uma multidão para Juazeiro, onde foi enterrado no cemitério do Socorro.

O beato era considerado um líder santo. Homem dedicado a oração e ao trabalho. Remanescentes falam da sua postura de homem íntegro. O paraibano que veio mudar a história nas terras do Ceará.

Mais informações:

Prefeitura Municipal

Secretaria de Cultura

Centro Cultural do Araripe, S/N - Crato

Telefone: (88) 3523-2365

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