Ajuda humanitária

Promessa de emprego atrai refugiados haitianos ao Crato

Cidade tem recebido migrantes por conta de intermediação de um padre voluntário à causa dos haitianos

00:00 · 11.10.2015 por Elizângela Santos - Colaboradora
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Grupo chegou há três meses e logo se frustrou com o salário pago pelo trabalho ( Foto: Elizângela Santos )
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Jude Lerenar conta que logo percebeu o malogro da viagem ao Cariri. Ele diz que saiu do Haiti por conta da falta de um meio de subsistência ( Foto: Elizângela Santos )
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Com a guerra civil, forças militares coordenadas pela ONU procuram a estabilidade do País. O uso da força tem o comando brasileiro ( Foto: Marcus Peixoto )

Crato Haitianos estão sendo atraídos para o Cariri com promessas de trabalho e encontram na região uma realidade diferente da proposta recebida em São Paulo. Antes de percorrerem mais de 3 mil quilômetros de ônibus e chegarem ao Crato, eles fizeram parte de uma lista em que os nomes são disponibilizados para empregos, organizada por um padre voluntário defensor da causa do povo haitiano que chega ao Brasil. A proposta, mesmo não sendo tão vantajosa, seria um recomeço para esses 17 trabalhadores em solo cearense. Grande parte deles deixou filhos e mulheres no país de origem e mais da metade do que recebem é enviado para casa.

Decepção

Mas os sete trabalhadores que conseguiram resistir até agora a um salário mínimo, ao invés de R$ 1.200 inicialmente propostos, pensam em ir embora. Eles não esperavam encontrar na cidade a moradia coletiva em um galpão, com dormida em colchões distribuídos no chão e dividindo a feira. A jornada de trabalho todos os dias começa cedo, por volta das 7h30 e vai até às 16h30, com uma hora de intervalo para o almoço. Na empresa onde os haitianos trabalham, a Cerâmica Batateira, os responsáveis não querem falar sobre as condições de trabalho dos trabalhadores estrangeiros. Os haitianos começaram a chegar no Cariri há três meses. A maioria deles, quando percebeu que a proposta de trabalho não era igual ao que foi combinado em São Paulo, voltou logo em seguida. Segundo Jude Lerenar, no momento em que foram à empresa para trabalhar, perceberam que o salário era bem menor do que imaginavam, e para muito trabalho. No local, há produção de telhas e tijolos, numa área em que há algumas empresas do gênero bem próximas. Não há casa e a comida eles têm que preparar. O local fica no bairro Batateira, próximo à CE 55, no KM 1.

Os haitianos vieram para o Brasil pelo Acre. Percorreram milhares de quilômetros e foram para São Paulo, depois de passar pela imigração. São milhares deles que têm optado por viver no Brasil, principalmente no Sudeste. "Estamos num lugar muito distante e não imaginávamos encontrar essas condições por aqui", afirma Delins Joseph. É o mais velho do grupo e deixou filhos e esposa no Haiti, como a maioria deles. Desde que veio para o Crato, mandou pouco dinheiro para a família. O olhar se direciona ao longe e brilha, ao lembrar dos seus.

A falta de empregos no Haiti levou muitos deles a sair de casa ainda cedo, a exemplo de Joseph. Ele morou por 18 anos na República Dominicana. "Até agora pude mandar uns R$ 400 para casa. Estou muito preocupado".

Acidente

Um dos companheiros de jornada extenuante, Carlo Pierre, chegou a se acidentar no trabalho. Estava tomando remédios que ele mesmo teve que adquirir na farmácia da cidade. Todos esperavam uma ação da empresa nos cuidados necessários ao funcionário. Com os poucos recursos, os próprios moradores do galpão, próximo ao local de trabalho, dividem cerca de R$ 100 para fazer uma feira básica. Outra pequena parte do dinheiro é usada para comprar produtos de higiene pessoal. A tentativa é de economizar ao máximo para mandar para fora.

Os homens, receptivos e educados, todos com idades entre 23 e 36 anos, sorriem ao receber pessoas estranhas e não se intimidam em falar da situação que estão vivenciando. A decepção com o novo trabalho é evidente. Wiguens Julien não imaginava ser tão útil na cozinha para todos do grupo.

Saudade

Com um colar de prata e um sorriso estampado no rosto, Jean Batis Loubert, não vê a hora de buscar alternativa para viver. "Com certeza, em São Paulo podemos conseguir um trabalho melhor", diz.

Todos sentem falta de casa. Vieram em busca de um sonho e se encontraram com a decepção. Até mesmo o prometido aparelho de televisão seria útil nesses dias de dificuldades. Para eles, essa foi mais uma promessa não cumprida.

O Ministério Público do Trabalho (MPT), por meio da Procuradoria do Trabalho do Município de Juazeiro do Norte, após acatar denúncia da situação dos trabalhadores haitianos, deve designar força-tarefa, com grupo móvel do MPT, para verificar a situação. Segundo a procuradora do Trabalho, Lorena Brandão Landim Camarotte, caso seja constatada situação degradante, mesmo sendo remunerados com salário mínimo e com carteira assinada, pode ser considerada análoga à escravidão.

A Procuradoria deve requerer à empresa a regularização, diante da constatação dos problemas. Caso não aconteça, pode ser ajuizada ação junto ao Ministério. Se os haitianos, nessa situação, quiserem retornar a São Paulo, a procuradora afirma que a empresa terá que dar condições, como alimentação e passagem de volta. Ela tomou conhecimento dos trabalhadores haitianos no Crato, por meio ds reportagem do Diário do Nordeste.

ANÁLISE

A falta que o padre Aristide faz ao país

Em 7 de julho de 2006, a convite do Exército Brasileiro, estava em Porto Príncipe, capital do Haiti. A viagem de cinco jornalistas brasileiros integrava a agenda da visita de oficiais das Forças Armadas à Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), que tem o comando brasileiro.

Naquele momento, ainda eram intensos os conflitos decorrentes da guerra civil que se instalou desde a queda do presidente e salesiano Jean-Bertrand Aristide, em 2004, conhecido como o "Padre das favelas".

Na cidade, não havia energia elétrica e para a violência buscava-se conter com a presença ostensiva dos militares armados com fuzis, tanques e bombas. A miséria, no entanto, não encontrava paliativo. Exemplo disso, eram os adolescentes que vendiam o sangue para laboratórios de países de primeiro mundo para tirar algum dinheiro que garantisse o sustento das suas famílias.

O mesmo breu da noite, por conta da falta de energia elétrica nas ruas e prédios da cidade, tinha um contraponto com a luz intensa do dia, que se refletia no mar do Caribe e resplandecia na arquitetura crua e branca, realçada da claridade, dos casebres e até os melhores prédios da capital.

Em meio a tudo, o lixo, os escombros e a escória daquilo que foi destruído ou consumido. Ruínas que, na minha sensibilidade, diziam tanto quanto se poderia fazer para trabalhar, reconstruir e reerguer. Mais do que armas, talvez tivesse faltando a voz de esperança do saudoso padre.

Marcus Peixoto
Repórter

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