Edificação histórica

Prédio inaugurado pelo Padre Cícero deverá ser recuperado

Estação Ferroviária é lembrada como idealização profética do sacerdote, fundador de Juazeiro do Norte

00:00 · 28.02.2016
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O antigo edifício representou um passo que a cidade dava para o desenvolvimento ( Fotos: Elizângela Santos )
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Apesar de o prédio ainda estar esquecido, foi aprovado Projeto de Lei, na Câmara local, que declara como patrimônio histórico e material a pedra fundamental, marcando a fundação da Estação de Trem Ferroviário, em 1925

Juazeiro do Norte. Um dos prédios inaugurados pelo Padre Cícero, nos anos 20, e que por vários anos se encontra no abandono, neste Município, poderá passar por recuperação ainda este semestre. A Estação Ferroviária, ao contrário do período em que foi inaugurada, distante do Centro, é uma idealização profética do sacerdote fundador de Juazeiro, de que o Município iria se expandir. Importante meio de integração entre cidades da região e para a economia local, o símbolo abandonado já teve idealizações de tombamento, mas não avançaram.

A Estação fica bem próxima ao Santuário dos Franciscanos, e de frente para a Praça dos Ourives, atualmente um dos pontos que vem crescendo na área gastronômica, com comércios do tipo "fast foods", além de outros estabelecimentos na área. A ideia agora é poder proporcionar um espaço para a arte e a cultura. Pelo menos é o que propõe a secretária de Cultura de Juazeiro do Norte, Marli Bezerra. Ela afirma que, nos próximos dias, será realizada uma avaliação para recuperação do prédio, que ela considera estratégico, além de ser importante para a história da cidade.

Segundo Marli, o projeto foi proposto à atual gestão da cidade, que acatou que o local possa sediar a Secretaria de Cultura. Ela afirma que, além desse prédio, monumentos históricos em praças de Juazeiro do Norte também serão revitalizados, a exemplo da Praça do Mateu, no Pirajá; estátua do Padre Cícero, que foi inaugurada pelo sacerdote, na praça com o seu nome; outra estátua do religioso, no Parque de Eventos, além de bustos das personalidades homenageadas em Juazeiro, que precisam passar pela melhoria. São cerca de 14 esculturas. As reformas devem ser iniciadas durante o mês de março.

Transformação

A secretária municipal afirma que, desde 2013, vem tentando transformar o espaço da estação numa área voltada ao encontro de artistas, artesãos, para que feiras e eventos possam ser vivenciados, além da gastronomia local. Mas, para haver essa recuperação, ela garante que a edificação será preservada em sua originalidade.

O prédio da estação já serviu de abrigo para a gráfica Lira Nordestina, que hoje se encontra no Centro Multiuso. É um dos pontos do Metrô do Cariri, mesmo sem muita movimentação no espaço. Uma área considerada marginal.

No local, são vistas pessoas usando drogas com frequência, e segundo moradores, passou a ser ponto de encontros sexuais. À noite, poucos ousam passar nas proximidades da área, principalmente do lado da linha férrea. São comuns roubos e assaltos nas proximidades.

Há vários anos se debate a possibilidade de tombamento do prédio, que precisa passar por uma recuperação. No ano passado se cogitou uma reunião com técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Ceará, para tratar da possibilidade de tombamento do imóvel. O que não aconteceu.

A estação ferroviária foi um projeto, que, para alguns historiadores, remetia ao lado visionário do Padre Cícero, que escolheu uma área distante do Centro para construir a estação, que traria desenvolvimento local. Em 1925 o prédio foi inaugurado pelo sacerdote. Algumas pessoas não entenderam o porquê da distância.

Expansão

A professora Assunção Gonçalves, já falecida, foi contemporânea do padre e disse que ele chegou a destacar o crescimento de Juazeiro a passos largos rumo ao futuro. A urbanização se expandiu, ao ponto de ultrapassar o longínquo prédio e bem distante dali haver bairros com o nome de Novo Juazeiro.

Ficou apenas a história, uma estação abandonada, que caso não haja cuidados necessários para se fazer a reforma e preservação do espaço, pode acabar sendo destruída.

"Temos o objetivo de fazer o resgate da memória da nossa cidade e esse prédio é um dos poucos e mais antigos que nos resta", diz a secretária. Muitos sobrados antigos existentes em Juazeiro, principalmente no Centro da cidade, estão fechados, deteriorados pela ação do tempo, ou passaram a estacionamento de veículos. Ela admite que Juazeiro já perdeu a maioria dos seus prédios históricos e nesse aspecto tem sido transformada uma cidade praticamente sem memória.

Temor

A faxineira Francisca Pereira passa com frequência nas proximidades da estação, mas, a cada dia, ela afirma que está com mais medo, por já ter ouvido falar em assaltos ocorridos na área. Principalmente no fim da tarde. Parte das paredes estão pichadas e com desenhos. Em 2009, integrantes da Associação Amigos da Arte (Amar) ainda decidiram ocupar parte do prédio, mas não permaneceram por muito tempo.

Foi aprovado Projeto de Lei na Câmara local, que declara como Patrimônio Histórico e Material a Pedra Fundamental da Estação do Trem. É o marco de fundação da Estação de Trem Ferroviário Rede de Viação Cearense da (RVC), em 12 de setembro de 1925. Mas o prédio ainda está esquecido.

A historiadora Ana Paula Monteiro Martins ressalta a situação de abandono e lembra que, no entono da estação nasceram bairros importantes, como Franciscanos, São Miguel e Salesianos. Os trens foram desativados no fim da década de 1980 e a Estação Ferroviária continuou lá, inerte.

O professor Renato Casimiro lembra que, antes da derrocada do sistema ferroviário na região, ainda houve a tentativa de se fazer o transporte de passageiro, "com algo mais charmoso e eficiente para passageiros. Foi o tempo do inesquecível 'Sonho Azul', com poltronas reclináveis e mais confortáveis para o destino de Fortaleza, em horário noturno", disse. Porém, o crescimento do transporte rodoviário e a falta de investimento do ferroviário resultaram na desativação dos terminais em várias partes do País. (E.S.)

Entrevista

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Estação foi um marco na expansão de Juazeiro

Renato Casimiro - Professor e pesquisador

Elizângela Santos - colaboradora

De que forma o senhor vê atualmente a preservação desse patrimônio deixado na cidade, que traz à memória realizações de um dos seus grandes fundadores?

Vejo com profundo lamento. Nós, povo e cidade, temos uma péssima convivência com a necessária providência de preservação da memória histórica.

No caso da Estação, há muitos anos abandonada, haveria possibilidade de um tombamento pelo Município e pelo Iphan?

Sim, perfeitamente, o tombamento é esperado há muito tempo. Mas, o que é isto? Tombar para deixar ao léu, para tombar espontaneamente pelas chuva e ventos? Quanta coisa esta cidade já perdeu pela omissão. Bem recentemente tivemos um prefeito, que assinou lei municipal tombando velhos casarões no entorno da Praça Padre Cícero, para ainda no seu mandato "destombar", anulando o ato que assinara anteriormente. Então, não há consciência de que isto tenha algum valor. Assina-se um ato municipal desta envergadura e depois, sem motivo qualquer, cede-se a interesses escusos.

Do ponto de vista econômico, qual a contribuição dada pelo transporte ferroviário ao desenvolvimento de Juazeiro do Norte?

Embora o transporte ferroviário tenha sido mais presente até os anos 60, portanto há mais de 50 anos, sua importância foi muito grande como alternativa para a população, tanto na direção de Fortaleza, quanto da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, pelas conexões via Arrojado (CE), Sousa (PB) e Mossoró (RN).

O senhor tem algum conhecimento específico de peculiaridades relacionadas a esse prédio, que hoje já está praticamente no Centro da cidade?

O prédio foi construído em 1925, seguindo um modelo arquitetônico que foi estabelecido pela então Rede Viação Cearense (RVC), desde os tempos da antiga Estrada de Ferro de Baturité. Ao seu lado, ainda hoje há um pequeno monumento fincado para a celebração deste dia de inauguração. Eram máquinas lentas, que pareciam chegar a cada cidade do Ceará estafadas pelo cansaço do trajeto. No entorno da estação, havia um largo pavilhão de madeira onde se bebia caldo de cana com bolo e pães doces e eram servidas refeições.

Mais informações:

Secretaria de Cultura e Romaria de Juazeiro

Memorial Padre Cícero

Praça do Cinquentenário, S/N

Telefone (88) 8877-3402

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