Ação e Organização

ONG Beatos renova tradições e valores culturais da Região

Iniciativa abre espaço para resgate do folclore e outras manifestações com identificação intelectual do Cariri

00:00 · 22.02.2015
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Arte popular detém uma atenção especial dos gestores da ONG Beatos ( Fotos: Elizângela Santos )
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No bairro Lameiro, em sítio bem próximo à zona urbana de Crato, são realizados os encontros de gerações para compartilhamento dos saberes, dons e habilidades para a poesia, a música e as artes plásticas

Crato. Um espaço naturalmente destinado à vivência das tradições da região do Cariri cearense. A cultura popular encontra morada na Organização Não Governamental (ONG) Base Educultural de Ação e Organização Social (Beatos). O projeto vem crescendo diante do olhar dos que têm uma visão literal da sua sigla. São pessoas que veem a cultura num processo constante de vivência e construção.

Uma delas é a gestora cultural e pesquisadora, Dane de Jade, atual secretária de Cultura do Crato. Ela é uma das idealizadoras do espaço, herança de família, e de um imaginário que permanece nas suas lembranças de infância como grande estímulo para manter latente a arte e promover o resgate das tradições. Em meio às moradias, com os seus modelos sertanejos preservados, há a Casa Museu e, ao lado, o galpão onde acontecem as vivências, cursos dos saberes destinados à comunidade, num resgate constante.

A ONG Beatos fica no bairro Lameiro, um sítio bem próximo à zona urbana de Crato. Os encontros de gerações para compartilhamento dos saberes são constantes. A poesia, a música e as artes plásticas se inserem no cotidiano e adentram os terreiros da Beatos. Já são 18 encontros com músicos contemporâneos e os mais antigos, que por meio de diálogos, reservam aos artistas a permanência de uma memória tradicional.

História

Idealizada desde 2003, a Beatos nasceu formalmente a partir de 2008. O avô bonequeiro de Dane de Jade chega no campo permanente de sua inspiração. As manifestações dos grupos têm cada vez mais sido restritas às datas comemorativas, como Dia de Reis e folclore e ela destaca a importância das políticas culturais para o fortalecimento dessas vivências.

Para Dane, a ONG Beatos é uma pequena reserva para a preservação da memória da tradição. O rumo das ações traz junto o processo de conscientização de como a arte pode andar junto com o desenvolvimento de uma sociedade. A gestora convive em meio às diversas formas de manifestação da arte regional. A poesia, a música, apresentações das bandas cabaçais, reisados, maneiro pau, mulheres do coco e repentistas. A mistura que faz a riqueza do Cariri tem passado frequentemente pelo espaço.

Dentro da construção de base educativa voltada para a arte, no ano passado foi desenvolvido pela ONG o projeto Estação Tradição - Primeira Parada, em que crianças de escolas públicas tiveram a oportunidade de adentrar o espaço de reconhecimento da arte e chegaram visualizar grupos se apresentando, pela primeira vez, nas terreiradas. Para a integrante da ONG Gisele Teixeira parece inacreditável para uma região tão rica.

Segundo ela, o crescimento das cidades acaba promovendo um pouco esse distanciamento. E é aí que entra o papel da Beatos, que somente no ano passado teve uma visitação expressiva de crianças e jovens, que fizeram a festa em meio aos instrumentos musicais de mestres da arte no Cariri, esculturas, vídeos e uma exposição fotográfica com os artistas, do fotógrafo Jr. Panela.

Ensinamento

O projeto Estação Tradição, que começava com um passeio pelo Centro da cidade até chegar à ONG, contextualizando a trajetória histórica da cidade e as manifestações da cultura, levou ao espaço cerca de 1.200 alunos e professores. O espaço inicialmente foi pensado para trabalhar com mulheres na comunidade. Seguindo a tradição aprendida em casa, Dane lembra sua avó e sua mãe, que pintavam, faziam bordados e costuravam. "Elas tinham essa vontade de passar o saber para as pessoas", afirma. O projeto foi sendo pensado como uma forma de acolhimento das pessoas no local e o fortalecimento desse aprendizado.

A casa de construção vernacular abriga a Sala do Sagrado Coração de Jesus, onde está o oratório, comum nas casas do sertão. Adentrando no espaço, estão distribuídos instrumentos musicais, alguns deles doados por poetas como Pedro Bandeira e outros pertences de mestres da cultura, exemplares de xilogravuras, cordéis, vídeos com os grupos de tradição e paramentos dos brincantes. A foto dos primeiros donos está na sala.

Na velha morada sertaneja vem junto um pouco dos costumes e tradições, com as cadeiras de couro de Bodocó, as meizinhas e as renovações, que ainda se mantém, com a tradição do Sagrado. A renovação era a festa mais emblemática. O dia da reza reunia a comunidade e eram feitos os sequilhos no forno do terreiro e o aluá para os convidados. Cada sala tem um significado e um aprofundamento na pesquisa que vem sendo realizada ao longo dos anos, para o resgate da ambiência Cariri. O projeto é um embrião, segundo Dane. A proposta vem caminhando. "Precisamos ativar essa memória de uma prática de convivência social muito saudável", afirma. Essas ações ampliam o contato humano que têm se distanciado pelo uso da tecnologia.

Os Beatos construíram a base educultural de organização e ordem social no Nordeste, segundo Dane, que tem se dedicado aos estudos, por meio do doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal. A pesquisa foca personalidades, que ela chama de beatos, como Padre Ibiapina, José Lourenço, Padre Cícero, Antônio Conselheiro e a Beata Mocinha.

A gestora destaca a formação educacional proporcionada por Ibiapina. "Ele constituiu esse pensamento do desenvolvimento do Nordeste brasileiro", diz ela, ao ressaltar a criação as casas de caridade no Nordeste por ele. As experiências de coletividade de José Lourenço, com sistema comunitário na primeira ecovila constituída no sítio Caldeirão e, sobretudo, a filosofia central do Padre Cícero. (E.S.)

Mais informações:

Base Educultural de Ação e Organização Social (Beatos)
Rua Cícero Alves de Sousa, 182
Lameiro - Crato - CE

Site:

www.beatos.org.br

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