vocação artística

Ofício e som dos ferreiros inspiram músicos de Potengi

Orquestra de cordas e ferro é formada por adultos e adolescentes, que se motivaram com o martelar na bigorna

00:00 · 09.08.2015
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Trabalho do grupo musical já inspira trilhas sonoras e estudos acadêmicos da URCA ( FOTO: JÚNIOR BALU )

Potengi. O som das batidas do martelo na bigorna se tornou um grande sonho aos ouvidos de um músico. Foi nas madrugadas deste município que nasceu um grupo musical inspirado no 'tilintar' dos ferreiros. O funcionário público e músico autodidata Raimundo Erivan Lucena de Almeida se apresentou como o primeiro a inspirar nesse som e formar assim um grupo musical.

Desse modo, começava a nascer o grupo "Ao Som das Cordas e Ferros", composto por seis pessoas, entre adultos e adolescentes _ uma espécie de 'orquestra dos ferreiros', como a cidade passou a classificar. A iniciativa já causa interesse acadêmico por parte de pesquisadores da Universidade Regional do Cariri (URCA).

As primeiras músicas elaboradas pelo grupo seguem no mesmo ritmo de criação dos instrumentos musicais, que acompanham o processo de formação da banda. A ideia de trabalhar algo que marcasse a identidade local e fizesse a cidade conhecida em qualquer lugar passou a ser o grande objetivo do artista. Ele segue buscando conhecimentos ao estudar formas diferenciadas de elaboração dos trabalhos.

Pesquisa

Nesse processo, as pesquisas passaram a se intensificar junto aos ferreiros. No início do projeto, Erivan saía de casa ainda de madrugada para realizar seus estudos auditivos e investigar as notas empregadas para reproduzir as batidas e depois transformá-las em canções instrumentalizadas. O grande passo era buscar instrumentos que pudessem lembrar com certa fidelidade o som dos ferreiros. Os aparelhos podiam até não ser esteticamente os ideais, a exemplo de um que simula um amolador de foice, ou mesmo outro criado por um amigo, que representa o som dos foles. É um fole mesmo e uma tábua com a escala musical. Do som de um motor, ele retira as notas do esmeril.

O resultado do trabalho é o repertório de 14 músicas. As apresentações do grupo, mesmo na pequena Potengi, ainda não são tantas, mas a ousadia ganha espaço, até mesmo para servir de trilha sonora para documentário sobre a cidade. Esse não foi o primeiro grupo musical de que Erivan fez parte com inspiração nos ferreiros artesanais. Antes, no final dos anos 1990, foi criada a Banda Ferrerus, que permaneceu até 2007.

O instrumento mais familiar que pode ser ouvido no grupo 'Ao som das Cordas e Ferros' é o de uma viola. São 10 anos de uma trajetória de trabalho para amadurecimento e execução do som dos ferros, que se tornava suave ao longo das adequações. "A pesquisa era em busca de um estilo musical capaz de sensibilizar as pessoas para lembrar de Potengi em qualquer lugar do Mundo", afirma Erivan.

Projetos

O tempo das batidas e o ritmo serviram de base para trabalhar as músicas. A experiência de sempre ter atuado em projetos musicais fez como que Erivan reunisse novos participantes, a maior parte deles em formação e adolescentes.

O universo musical de Erivan é palco das execuções das músicas, a maior parte delas inspiradas em nomes como o rei do baião, Luiz Gonzaga, como Asa Branca e A Volta da Asa Branca. No repertório também entra músicos como Renato Borghetti. Todos revelados no som acústico dos ferros.

Raimundo Erivan é o mais velho do grupo, que agora quer respirar outros ares para mostrar a musicalidade do seu povo. Além dele, fazem parte da orquestra Laiane Aparecida Leite Almeida, a única mulher do grupo, José Wesbsther Vieira Paiva, Renan Ruan Feitosa, Antônio Hugo da Silva e Antônio Leanderson Leite.

Tentar fazer algo diferenciado para o público que não imagina essa ousadia fez com que Erivan se tornasse um estudioso dos diferentes sons produzidos por artistas que trabalham com grupos tradicionais. Os que mais inspiram o músico são os regionais, exemplo disso os sons dissonantes dos violeiros.

Com todo o trabalho empreendido ao longo da última década, produziu-se um diálogo desses instrumentos, para reproduzir o som que fizesse com que as pessoas acreditassem nesse trabalho. Os músicos tiveram que se adaptar aos novos instrumentos. "O público estranha no começo, como se não fosse possível, mas acaba se acostumado com a ideia", afirma. No momento, os integrantes estão pensando num trabalho mais amplo de divulgação, com a elaboração de um DVD.

Antônio Hugo da Silva há cerca de seis anos está inserido na 'orquestra dos ferreiros'. Toca violão e percussão. É um multi instrumentista. A ideia de formar esse grupo diferenciado foi, no início, algo estranho para ele. Mas considera algo inovador, diferente, e que trouxe o único no formato com esse tipo de inspiração, com uma nova sonoridade. Os ensaios do grupo acontecem toda semana e os integrantes fazem isso por amor à música. 

Elizângela Santos
Colaboradora

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