Efeitos da seca

Oferta de farinha cai 50% em 2015

A queda no cultivo da mandioca é um dos fatores que tem prejudicado os produtores da região

00:00 · 13.12.2015 por Elizângela Santos - Colaboradora
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A técnica rudimentar ainda prevalece em muitas casas de farinha que existem no Interior
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Em Araripe, uma casa de farinha chegava a produzir 700 sacos do produto por semana. Reduziu para mais da metade, chegando a 300 sacos ( Foto: Amaury Alencar )

Araripe A queda na produtividade da mandioca e cultivo tem preocupado agricultores de municípios do Cariri, onde há uma predominância do produto na base da economia local. Em cidades como Salitre e Araripe há uma mobilização dos produtores, no sentido de fortalecer a comercialização, que, nos últimos anos, esteve em baixa, principalmente pela redução no preço da farinha.

Segundo proprietários das fábricas, há uma queda de mais de 50% na produção, restando o apoio do poder público, no intuito de debater com os produtores rurais alternativas de fortalecimento do setor.

Com o solo enfraquecido, devido à monocultura de longos anos, e a ausência de políticas públicas e fortalecimento da cadeia produtiva e financiamentos, há um desestímulo do pequeno produtor, por achar que não compensa mais viver da cultura da mandioca.

O ciclo da produção é demorado e houve, ao longo do tempo, uma desvalorização, segundo o técnico Maurício Batista, responsável pelo posto avançado da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), em Salitre.

Ele destaca que são mais de 100 casas de farinha, somente na pequena cidade, que tem sofrido, ao longo dos anos, com a escassez de água. A produção de mandioca, por exigir pouca água para o cultivo, foi uma das alternativas encontradas para a sobrevivência, e que também, nas terras de Salitre, encontrou solo propício.

Mas, segundo o técnico, vem surgindo uma alternativa de melhora, com a comercialização do produto cearense no Estado do Pernambuco. Nos últimos meses, o saco de 50 quilos de farinha estava sendo comercializado a R$ 30, o que vinha desestimulando o produtor, e passou a R$ 70. Os comerciantes de Pernambuco têm ampliado a demanda de mercado, com a compra da tonelada de mandioca de até R$ 300. Estava sendo vendida a R$ 100. "Isso tem animado o produtor", afirma Maurício.

Dependência

Mas, para fortalecer o mercado local, incluindo cidades como Araripe, que também conta com grande produção de farinha de mandioca e goma, com praticamente o mesmo número das casas de farinha de Salitre, os produtores apostam em políticas públicas voltadas para o fortalecimento do cultivo e correção do solo. Segundo o técnico Maurício Batista, são muitos anos dependendo da monocultura da mandioca, e, hoje, as terras estão necessitando de fortalecimento, com adubação.

Há uma redução considerável, em cinco anos de cultivo. Eram cerca de até 20 toneladas de mandioca por hectare, atualmente atinge o patamar de até 9 ou 10 toneladas. A tendência desse processo é o quadro se agravar.

Outro aspecto está relacionado ao problema da renda do cultivo. O produto, bastante popular no Nordeste brasileiro, segundo os técnicos, além do momento de desvalorização no mercado, tem a própria cultura minimizada. Conforme os produtores, a abertura maior para o Estado de Pernambuco, tem sido a alternativa para continuar ativando as casas de farinha. Para Batista, não tem como cultivar algo que vai resultar no processamento e comercialização de um produto de tão baixo custo.

Tempos ruins

Segundo o proprietário de casa de farinha em Araripe, Antônio Januário Rodrigues, que desde criança vivencia o cotidiano da produtividade em sua cidade, nunca se viu tempos tão ruins em relação ao cultivo e processamento da mandioca.

Ele disse que havia paralisado os serviços em sua fábrica de farinha. Antes chegava a produzir 700 sacos do produto por semana. Reduziu para mais da metade, chegando a 300 sacos, considerando, também, a escassez de água em sua cidade. "Está muito ruim e não tenho muita esperança de que esse setor possa melhorar. A mandioca está acabando, o produtor está desestimulado e isso compromete muito a economia do Município", lamenta.

O prefeito recém-eleito de Araripe, Giovane Guedes, que tomará posse na administração local no próximo dia 16, afirma que essa tem sido uma grande preocupação para a cidade, já que a cultura da mandioca tem uma larga importância para a economia local, empregando grande parte da mão-de-obra no cultivo e produção.

Segundo ele, é preciso ter uma atenção maior voltada para essa problemática, até porque é um tipo e produção que não carece de muita água, possibilitando oferecer produtos de qualidade e comercializáveis. O novo gestor garantiu buscar alternativas para melhorar as condições do agricultor.

Seca

Produtor de Mandioca em Salitre, Elias Antonio Albuquerque, externa que a falta de água está atingindo a sua produção da farinha de mandioca, além de estar gerando desemprego, porque diversas casas de fabricação do produto do Município já tiveram que fechar. Muitas pessoas que perderam sua renda mensal, estão precisando abandonar a cidade por isso.

Com a crise, gerada pela falta de água, a farinha está perdendo a qualidade e também o seu preço. "Apesar de termos uma resistência maior pelo fato de o Município ter áreas propicias para o plantio de Mandioca, estamos vendendo a farinha para o Estado do Rio Grande do Norte, mesmo a um custo insignificante, para não ficarmos totalmente no prejuízo", afirma.

Em 2013, o Município de Salitre, maior produtor da região, desempregou cerca de 5 mil pessoas com o fechamento de 82 casas de farinha. O principal fator de crise foi a estiagem, que continua atingindo a produção, com queda substancial da matéria-prima.

A economia da cidade está sendo afetada e os comerciantes sentem o impacto em suas vendas. Apenas 25% das casas de farinha estavam em funcionamento no Município. A área de plantio da mandioca é em torno de 16 mil hectares. Em função do período de seca, a área foi reduzida em pelo menos 50%. O Município tem uma população em torno de 16 mil habitantes e 70% sobrevivem da cultura da mandioca.

Giovane Guedes ressalta a participação do Município de Araripe como grande produtor de mandioca, mas as pessoas, em sua maioria, ainda produzem de forma artesanal e há necessidade de uma política de incentivo, preparação de solo e garantia de preço mínimo.

Guedes destaca a presença do atravessador, no processo de comercialização, o que prejudica mais ainda o pequeno produtor. Resta a preocupação de como serão trabalhadas essas novas alternativas e diante de um quadro de estiagem.

O prefeito de Salitre, Rondilsom Ribeiro, diz que são mais de duas mil famílias que vivem diretamente dentro das roças de mandioca e o produto é uma das maiores fontes produtoras de renda do Município. Já são mais de quatro anos de seca, e o problema tem se agravado a cada no, sem que haja melhoria para o pequeno produtor, nesse segmento específico.

Mais informações:

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Centro

Telefone: (88) 3537-1196

Site: salitre.ce.gov.br/portal

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