Nova Olinda

Museu do Couro ajuda no resgate da cultura

Uma das sandálias expostas é um modelo das usadas pelos cangaceiros, mas feita no estilo de seu Espedito

00:00 · 28.12.2014
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O museu chama a atenção pelo tradicionalismo. É lá onde estão as peças raras e equipamento de produção utilizados pela geração familiar do seu Espedito ( Foto: Elizângela Santos )

Nova Olinda. Começa a visitação ao Museu do Couro em Nova Olinda. O equipamento, inaugurado recentemente, passa a fazer parte de um conjunto de equipamentos que vêm sendo desenvolvidos na região do Cariri para o resgate da cultura local. O museu relembra a história do ciclo do couro, pelo trabalho do mestre Espedito Seleiro.

O projeto, para ele, é a realização de um sonho. A cidade de Nova Olinda passou a ser uma das mais visitadas da região, pelo resgate arqueológico do Memorial do Homem Kariri, da Fundação Casa Grande. São cerca de 70 mil visitantes a cada mês no museu, que também atua na área de comunicação, na formação de crianças e adolescentes e turismo comunitário.

Uma casa sertaneja, no Centro de Nova Olinda, chama a atenção pelo tradicionalismo. É lá onde estão as peças raras e equipamento de produção utilizados pela geração familiar do seu Espedito. Desde o seu avô, pai e agora ele, também passando o legado para os filhos, estão produzindo calçados, bolsas e acessórios estilizados e em couro, além das selas e gibões artesanais. A fama de seu Espedito, segundo o diretor da Casa Grande, Alemberg Quindins, é internacional. Ele tem inspirado grandes estilistas de moda e coleções de grandes marcas, como a Cavalera, além de vestir modelos como Paulo Zulu em desfiles.

Durante a inauguração do Museu, que contabiliza um acervo fotográfico desenvolvido a partir de pesquisa do trabalho do paraibano Augusto Pessoa, contando com investigação arqueológica da diretora da Fundação Casa Grande, Rosiane Limaverde, e montagem de Lis Cordeiro, foi realizada a assinatura do convênio com a instituição Geopark Araripe.

A Casa Grande completa 22 anos, com comemoração realizada no último dia 19, e teve convênio renovado com o Geopark. O coordenador do projeto, Idalécio Freitas, destaca a importância desses equipamentos como espaços de preservação da memória cultural da região.

O mestre Espedito disse que esse é um dos momentos mais felizes de sua vida, de poder ver materializado um sonho de muitos anos. E, para isso, passou a produzir várias peças, além de levar para a exposição permanente no museu um acervo antigo da família. A apresentação do ciclo do couro exposto no museu foi realizada pelo diretor da Fundação Casa Grande. Alemberg Quindins, um dos principais apoiadores do projeto.

O museu traz na sequência da história do ciclo do couro no Nordeste, desde o litoral baiano até chegar ao sul do Ceará, quando Tomé de Sousa trouxe para o Brasil o seu imediato, Garcia D'ávilla, e criou a Casa da Torre, na Bahia. Ele trouxe o gado para o Brasil, vindo de Cabo Verde, na África. O primeiro obstáculo do caminho das boiadas foi o Rio São Francisco, para ter de entrar no sertão. A boiada chegou ao Piauí pela fazenda Cabrobó, que deu origem a cidade de Oeiras, primeira capital do Piauí. A chegada ao Ceará veio depois, pela Ibiapada, e o gado desceu a serra, chegando até a Chapada do Araripe.

Alemberg explica minuciosamente essa trajetória para o público, destacando o hábito que se tinha de marcar as árvores com o ferro do boi, no caminho das boiadas, que também ia para a Paraíba, passando pelo Ceará. Fotos históricas da Casa Grande, apoio dos aboiadores e pedaços da árvore com a marca dos ferrões do gado podem ser vistos no museu. No meio desse caminho, com a necessidade da indumentária do vaqueiro, nascem as famosas vestimentas produzidas pela geração Seleiro. Há um espaço dedicado ao trabalho do mestre no memorial que leva o seu nome.

Com o descerramento da placa, o público de Nova Olinda teve a oportunidade de acompanhar a trajetória de um dos seus mais ilustres filhos, que agora abre a sua casa em forma de museu para levar a cultura do couro, a tradição de família, para o conhecimento dos moradores da cidade e visitantes. Segundo Espedito, foram muitos anos tentando dar forma ao seu grande sonho. Ele disse que seria a oportunidade de fazer com que essa história não se perdesse no tempo. Uma das sandálias expostas é exatamente a que confeccionou para Alemberg, modelo das usadas pelos cangaceiros, mas feita no estilo de seu Espedito.

A partir deste modelo, passou a criar outras sandálias. Os rabichos coloridos de couro ganham outro contorno e inspira a confecção de bolsas, cintos e sandálias e dão um sentido diferenciado à oficina, que até então produzia selas e gibões. O Seleiro chegou às passarelas da moda mais famosa do Brasil, a São Paulo Fashion Week.

Rio de Janeiro

É comum o mestre Espedito realizar exposições no Sudeste. Ano passado, levou seu trabalho ao Rio de Janeiro, onde chegou a comercializar todos os artigos que produziu. Veio com novas encomendas. O trabalho bem aceito pelo público fez do seu próprio espaço de trabalho em Nova Olinda um local de visitação do público admirador e consumidor do seu trabalho. Praticamente anexo ao museu se encontra a oficina e, do outro lado da rua, a loja também aberta há cerca de um ano. (ES)

Mais informações:

Espedito Seleiro
Rua Monsenhor Tavares, 140
Centro - Nova Olinda - CE
Telefone (88) 3546. 1432

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