Cultura popular

Mito do Seu Lunga é mantido um ano depois de sua morte

A reputação de homem intolerante a perguntas com respostas óbvias o transformou num personagem folclórico

00:00 · 22.11.2015
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Pesquisadores refletem sobre a vida pessoal de uma figura que entrou no imaginário popular
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Um lado pouco conhecido era a índole de elogiar e louvar pessoas queridas em velórios. O mesmo aconteceu por ocasião da sua morte, quando amigos e personalidades da região acompanharam as cerimônias fúnebres ( Foto: Elizângela Santos )

Crato. Em 1927 nascia, no Sítio Gravatá, na zona rural de Caririaçu, Joaquim dos Santos Rodrigues. Dezesseis anos mais tarde, uma vizinha daria o apelido ao homem que se tornaria um dos principais símbolos da cultura popular cearense. Joaquim, passou a ser chamado de Calunga. Tempos depois, o apelido resumiu-se a Lunga. Há exatos 12 meses, Juazeiro do Norte perdia Seu Lunga, em decorrência de um câncer de esôfago.

Por tradição, ele costumava fazer elogios e louvações. Não tinha um só sepultamento de alguém da família que este deixasse de se colocar num ponto estratégico e de boa visibilidade para fazer a sua saudação póstuma. Não poderia ser diferente em seu velório. Mas a reputação que ficou foi de homem mau humorado, zangado e grosseiramente engraçado.

O primo e jornalista Demontier Tenório foi o responsável pela homenagem ao parente, muito embora tenha sido breve em suas palavras afirmando que "não adiantava falar de Seu Lunga, pois todos já o conheciam bem, e muito menos repetir as mesmas palavras de conforto que ele estendia aos demais familiares, pois este era um homem permanentemente confortado diante de tudo que ocorria".

Ao lembrar do primo segundo, Demontier adverte que o rótulo de "ignorante" atribuído a Lunga "não era verdade". Segundo ele, Seu Lunga, "era um homem trabalhador, sincero e de bom caráter", predicados corroborados pelo professor e pesquisador Daniel Walker de Almeida Marques, primo do ex-ator José Wilker, cujos pais foram vizinhos de Seu Lunga por décadas.

Ferro-Velho

Daniel avalia que a fama de carrancudo do mítico personagem juazeirense surgiu e ganhou força no ferro-velho em que Lunga trabalhava, situado na Rua Santa Luzia. "Ele não gostava de perguntas bobas. Tão logo fosse feita alguma pergunta mal elaborada ou, de cunho irônico, Lunga respondia firmemente", ilustra o pesquisador.

Todos os dias, excetuando os domingos, Lunga realizava o trajeto a pé ou de bicicleta entre os cinco quarteirões que separavam sua residência e o local de trabalho. A sucata acanhada, de paredes desgastadas pela ação do tempo e repleta de "trecos", conforme classifica Walker, tornou-se uma espécie de ponto turístico de Juazeiro do Norte.

A comerciante Cícera Lucena Arraes, funcionária de uma loja localizada a poucos metros da sucata, conta que era vagarosa e cautelosa a aproximação daqueles turistas que almejavam um registro com o "homem mais zangado do mundo", título do cordel lançado em 1987, escrito por Abraão Batista e que foi alvo de ação judicial movida pelo próprio Lunga.

"Era uma cena engraçada. Muitos chegavam aqui na rua, ficavam olhando de longe e aos poucos se aproximavam, pedindo uma foto. A impressão é que a fama dele já havia se espalhado por todos os cantos e muitos tinham medo", lembra com bom humor. Lunga não se dava ao trabalho de levantar de seu assento velho de madeira para "pousar" para as fotografias. Lá mesmo os turistas encostavam para foto. "Ele passava o dia todo sentado, observando o trânsito e assistindo sua pequena TV.

Fama injusta

Meses antes da morte de Seu Lunga, um grupo de fortalezenses de uma mesma família esteve em Juazeiro do Norte e foi até o ferro-velho. Liduína Barbosa revela que, em seu imaginário, "Lunga era rude, extremamente grosseiro e mal-educado", tal qual alimentava a literatura de cordel. "Não achei nada disso. Apesar de ele não ter levantado da cadeira para falar conosco, não faltou com educação, não foi ignorante e até teve paciência para tirar várias fotos com todos nós", relata a secretária.

Daniel Walker não só confirma "os bons modos de Seu Lunga", como revela: "Ele era bastante prestativo. Sempre que solicitado, fazia questão de atender, com rapidez". Apesar de considerar o antigo vizinho como um "homem agradável", o pesquisador admite: "Ele não tinha o riso fácil, mas isso não é sinônimo de ignorância". O professor e pesquisador cearense de cultura popular Renato Casimiro é outro que discorda do que foi atribuído ao "poeta", como Lunga gostava de ser reconhecido.

"Mesmo que Lunga tivesse a tolerância zero com algumas indagações, muitas delas feitas única e exclusivamente para ironizar e até ridicularizá-lo, não chegavam a ser tão absurdas como o que foi escrito com tom pejorativo em muitos cordéis, contribuindo para que a fama de carrancudo se espalhasse", disse.

Causos

Uma das piadas atribuídas a Lunga, tornou-se conhecida nacionalmente. "Reza a lenda que certa vez Lunga caminhou alguns metros até um bar próximo à sua residência, nas imediações da Capela do Socorro, onde está sepultado do corpo de Padre Cícero, e pediu que o proprietário colocasse uma música. Consternada, a dona teria respondido: "Não posso. Meu marido morreu". Seu Lunga, irritado, retrucou: "E ele por acaso levou os discos pro caixão?".

Lunga também possuía um lado religioso. Demontier Tenório lembra que o primo era "homem católico e devoto do Padre Cícero. O sacerdote, que foi prefeito de Juazeiro do Norte por 15 anos, teria servido de inspiração para que Lunga se aventurasse na vida política. Isso acabou nunca acontecendo. (A.C.)

Fique por dentro

Um homem alegre e de poesia sensível

O mundo de Lunga não girava tão somente em torno da rispidez e mau humor. Uma forma - quase infalível - de arrancar um sorriso, ainda que tímido, de seu rosto, era pedir que declamasse uma de suas 20 poesias. Aliás, era um dos raros momentos que tirava Lunga do conforto de seu banquinho da sucata.

Para declamar, Lunga ficava de pé e estufava o peito. Foram contabilizados 78 títulos de cordéis contando a história de Lunga, o que causa estranheza por não ter sido lembrado pelos versos criativos e sensíveis.

Essa ausência nas recordações de seu histórico pessoal se soma às poucas referências que se tem de sua atividade como agropecuarista e comerciante.

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