Saúde psiquiátrica

Fechamento de hospital gera comoção e preocupação

Casa de Saúde Santa Teresa, no Crato, não sobreviveu à crise, enfrentada desde o início dos anos 2000

00:00 · 03.01.2016
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Estão internados na unidade ainda cerca de 60 pacientes, que receberão alta médica de forma gradativa até o fechamento do hospital ( Fotos: Elizângela Santos )
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Após cerca de 15 anos se arrastando por uma grave crise de funcionamento, os sócios viram que não havia mais condições de continuar prestando os serviços

Crato. É irreversível a situação de fechamento, na primeira quinzena de janeiro, da Casa de Saúde Santa Teresa, que há mais de 45 anos presta serviços na área psiquiátrica nesta cidade do Sul do Ceará. O hospital é referência de tratamento para o Cariri e Estados vizinhos. Após cerca de 15 anos se arrastando por uma grave crise de funcionamento, os sócios viram que não havia mais condições de prestar os serviços.

Estão internados na unidade ainda cerca de 60 pacientes, que receberão alta médica de forma gradativa até o fechamento completo do hospital. As homologações dos últimos 70 funcionários do estabelecimento, que se encontram de aviso prévio, já foram realizadas.

Nas últimas décadas, a cidade do Crato, que era um dos polos de atendimento à saúde no Interior do Estado, passou por um processo de precarização e fechamento de três hospitais.

O Hospital São Francisco, que atualmente é administrado por camilianos, conta com reformas para se manter em funcionamento, além das unidades de saúde Doutor Raimundo Bezerra de Farias e São Miguel.

Segundo uma das diretoras da Casa de Saúde Santa Teresa, Luciana Abath, o fechamento acontece até o dia 15 de janeiro, e tudo que poderia ser feito para que os serviços continuassem já ocorreu.

As diárias do Sistema Único de Saúde (SUS) já não estavam sendo corrigidas há vários anos e, com isso, houve uma defasagem muito grande para manter a casa. Luciana lamenta pelas famílias dos internos, que estão em situação lamentável. "É muito difícil. As pessoas estão apavoradas e entristecidas ao extremo", afirmou a diretora.

Conforme Luciana, há casos extremos em que não haverá como realizar o atendimento por meios do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) e nem nos postos de saúde, onde não há internamentos. "Pelo visto, vamos voltar ao estado mais primitivo, em que as pessoas vão construir cárceres privados dentro de casa, no fundo dos quintais, para manter as pessoas doentes, em estado de surto, por não terem para onde ir", ressalta.

Segundo a diretora, o orçamento da casa estava voltado para o pagamento da folha e impostos. "O restante, a gente tinha que se virar", afirma. Conforme suas informações, as diárias repassadas pelo SUS já estavam há cerca de dez anos sem a correção, no valor de R$ 42, por paciente. "Não adianta nadar contra a maré", lamenta.

Para Luciana, a situação se tornou mais grave há cinco anos, com as adequações às novas políticas de atendimento. O processo de mudanças em hospitais psiquiátricos fez com que equipes multidisciplinares fossem contratadas para manter o tratamento mais humanizado, proporcionando maior ressocialização dos doentes. Dos pacientes que ainda restam nas dependências, estão mais de 30 homens, 16 deles na emergência, e 27 mulheres.

Despedida

Os funcionários aproveitaram o último ano em que se encontraram reunidos e, na semana passada, realizaram a confraternização natalina da casa. Um momento de despedida. Todos de aviso prévio se despediram do único hospital psiquiátrico do Cariri. Mesmo com vários apelos aos governos estadual e federal, parlamentares da região, município e até mesmo a própria sociedade, não houve condições de manter a casa.

"Estamos muito tristes com esse momento. É mais desolador ainda para as famílias dos pacientes, que precisam do tratamento e muitas vezes não têm como controlar uma pessoa doente em casa", afirma o auxiliar de limpeza, José Ailton da Silva, há 16 anos trabalhando no local.

A Casa de Saúde recebeu pacientes de Estados como Pernambuco, Piauí e Paraíba. Até maio de 2015, se encontrava com cerca de 200 pessoas internadas, fora os atendimentos e acompanhamentos que aconteciam, durante a semana. Agora no fim, são apenas 63. O espaço ficava lotado, diante da carência de tratamentos psiquiátricos na região. Desde outubro que se intensificou a saída dos pacientes.

Outra diretora da casa de saúde, Ana Isabel Barreto Machado Dias, afirma que desde a reforma psiquiátrica o hospital vem buscando se adequar à Lei Antimanicomial, inserindo a humanização no tratamento. Ela também atribui o fechamento dos equipamentos à visão governamental em que se acredita que o problema da psiquiatria seja resolvido com a redução de leitos e os encaminhamentos para os Caps e clínicas. "Infelizmente, com mais de 15 anos que foram criados os Caps, a demanda continua a mesma ou até mesmo maior", avalia.

As despesas diárias de um paciente equivalem a cinco refeições, assistência médica psiquiátrica, clínica de Psicologia, assistência social, terapia ocupacional, enfermagem e medicação. Mesmo recorrendo ao Estado já uma vez, Ana afirma que não teve esperança em relação a um auxílio para os serviços. Em 2014, chegou a conseguir isenção de impostos municipais, no valor de quase R$ 8 mil, o que ajudou nas despesas. Para chegar a um alinhamento com as despesas, calcula que a diária recebida por pessoa deveria chegar a pelo menos R$ 150,00.

Com todas as dificuldades, a única alternativa, conforme Ana Isabel, foi encerrar as atividades, da forma menos traumática, minimizando a quantidade de pacientes aos poucos.

O local também funciona como hospital durante o dia. Há pacientes que foram encaminhados pela Justiça, mesmo não sendo um manicômio judiciário. Familiares fizeram até abaixoassinado para vetar o fechamento.

Famílias

A situação das famílias que necessitam do serviço é desoladora. Para a dona de casa Francisca Elias do Nascimento, é extremamente preocupante o fechamento do hospital. Ela tem um filho internado no local. Ela mora em Juazeiro do Norte e diz que não sabe como vai fazer. "Aqui é o único local que o acolhe e há necessidade de um tratamento", afirma dona de casa.

O professor Renato Hélio teve que se deslocar do Estado do Pernambuco para encaminhar o irmão com a mãe até o hospital psiquiátrico. "Vivo em outro lugar trabalhando e fico apreensivo com essa situação de ela ter que conviver com uma pessoa que a gente sabe que é agressiva e só tem esse lugar para a gente recorrer", afirma.

Já a dona de casa Cícera Maria tem necessitado dos serviços da casa de saúde como única alternativa para onde pode levar o seu tio, do Município de Aurora. Após um surto, ela o levou para a Casa Santa Teresa, onde o homem encontra-se internado há mais de 40 dias.

"Na minha casa são três idosas, incluindo a minha avó de 94 anos. Não há a menor possibilidade de elas cuidarem dele. Nas crises ele é agressivo e quer matar o povo", diz.

Para Cícera, se não houver a possibilidade de internar o parente no Crato, a única alternativa terá de ser encaminhá-lo para Fortaleza, longe da família. "Gostaria que dessem um jeito de não fechar, porque as pessoas de Aurora são todas encaminhadas para cá. É uma pena", lamenta. (E.S.)

Mais informações:

Casa de Saúde Santa Teresa

Travessa Doutor Rolim, S/N
Vila Alta - Crato
Telefones: (88) 3523-2511 / (88) 3523-2469

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