vendas de fim de ano

Crescimento pode ser menor

Apesar de a situação do Município não ser das piores, o índice de inadimplentes é em torno de 17%

00:00 · 15.11.2015 por André Costa - Colaborador
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O comércio continua aquecido, mas espera-se que o 13º sirva para dívidas ( Fotos: André Costa )
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A maioria dos inadimplentes é do sexo feminino, com 60,95% do total de inclusões no banco de dados do SPC Brasil. Mas as mulheres também lideram o percentual de exclusão, com 61%

Juazeiro do Norte. Notabilizando-se como uma das mais importantes cidades interioranas do Nordeste, a Terra do Padre Cícero segue em crescimento vertiginoso, na contramão das previsões poucos otimistas dos demais centros, além de driblar, com considerável êxito, a crise financeira que atinge o País. A estimativa de incremento de 3,5% nas vendas para o fim de ano, no entanto, poderia ir além, caso o número de endividados não chegasse a quase um em cada cinco juazeirenses.

De acordo com a base de dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), o índice de inadimplentes de Juazeiro do Norte está em 17,64%. O número apresenta pequena redução se comparado a igual período do ano passado, quando 17,89% dos consumidores estavam com o nome sujo na praça. No mesmo período, o Estado apresentou 19,9% dos consumidores com dívidas em atraso.

Segundo Hágara Saldanha, diretor do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil, na Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) Juazeiro do Norte, "apesar do índice, o comércio não foi afetado e, em alguns segmentos, até houve crescimento durante o ano, como no setor de vestuário em virtude das importações".

Apesar de atualmente não existir nenhuma campanha em massa da CDL de Juazeiro, existem algumas iniciativas de comerciantes locais, que fazem essas ações de forma individual. "Vale a criatividade de cada lojista, que pode partir das condições especiais para negociação, retirando juros, parcelando a dívida, etc", pondera Saldanha.

Hágara explica que a retração na economia, com juros e inflação mais altos, deixou o consumidor mais "inseguro", levando-o a priorizar o pagamento dos bens e serviços de primeiras necessidades, como alimentos, água e luz, por exemplo. "As contas com cartões de crédito e crediário acabam por ficar em segundo plano, gerando a inclusão no SPC", acrescenta.

Crise financeira

Segundo o economista José Oliveira Barbosa, a elevação das taxas de desemprego, o peso da inflação mais alta no bolso do consumidor e os juros cada vez maiores explicam porque as dívidas estão dificultando a vida financeira do consumidor, impulsionando a inadimplência.

"Os indicadores negativos na comparação com o ano passado refletem as condições menos favoráveis da atividade econômica, tanto para o consumo, quanto para o pagamento de dívidas. O rendimento dos trabalhadores está crescendo menos, o desemprego segue em trajetória crescente e a inflação e os juros se encontram em patamares elevados. Desse modo, o consumidor vê a sua capacidade de pagamento se deteriorar, o que torna ainda mais difícil quitar ou renegociar as dívidas em atraso", explicou o presidente da Confederação Nacional dos Diretores Lojistas (CNDL), Honório Pinheiro, em comunicado oficial.

Promoções

Para superar este quadro e manter a estimativa positiva nas vendas, os lojistas têm apostado em promoções, valorizando a compra a vista. É comum os comerciantes ofertarem preços diferenciados para aqueles clientes que pagam em dinheiro. "Se por alguma razão o consumidor não pode fazer um crediário ou utilizar o cartão de crédito, devemos criar alternativas para que este cliente não fique inativo. Descontos e brindes se tornam uma saída para manter as vendas aquecidas", detalha a comerciante Cláudia Moreira Custódio.

13º salário

A aposta dos lojistas para reduzir o número de inadimplentes nas vésperas da principal data para o comércio, seguido pelo Dia das Mães e Dia dos Namorados, está no 13º salário. A expectativa é que os consumidores endividados possam utilizar parte do dinheiro para sanar contas atrasadas. "Na maioria das vezes, as pessoas usam o décimo para sair um pouco do aperto, quitar dívidas antigas e o restante usar para comprar presentes. De qualquer forma, em ambas as opções, o comércio fica aquecido", avalia Hágara.

O incremento salarial, ainda segundo o diretor do SPC, "é uma excelente oportunidade para o consumidor rever seus conceitos sobre consumo, e planejar suas finanças para 2016. A reeducação financeira será a melhor forma de pagar as contas e não se frustrar no momento de comprar", conclui.

Perfil

A maioria dos inadimplentes é do sexo feminino, com 60,95% do total de inclusões no banco de dados do SPC Brasil. Muito embora as mulheres também liderem o percentual de exclusão, com 61%. O tempo médio que cada inadimplente permanece no banco de dados é de aproximadamente 36 dias.

A explicação para o número de endividados pode residir na baixa demanda de postos de trabalho. Segundo o Sistema Nacional de Emprego (Sine) de Juazeiro do Norte, em um ano, o número de contratações caiu pela metade. Antes funcionária de uma loja de máquinas, com renda média mensal de R$ 1,5 mil, uma mulher de 34 anos, que pediu para ter a identidade será preservada, contou que está desempregada há dois meses. De acordo com ela, "não há vagas".

"Trabalho desde os 21 anos, comecei vendendo roupa na feira com minha mãe e minha tia. De lá para cá conclui o Ensino Médio, fiz um curso técnico e há dois anos estava no antigo emprego. Só neste semestre, eu e mais três colegas fomos demitidas. O faturamento da empresa caiu bastante", explica. Ela conta que mantinha as contas em dia com bastante dificuldade, porém, agora, desempregada, "não teve alternativa". "Estou esperando o seguro-desemprego para limpar meu nome e torcendo para que 2016 as oportunidades voltem", finaliza.

Conforme pesquisa realizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Ceará (Fecomércio-CE), este quadro é bastante comum. Sem emprego e, consequentemente, sem renda, é difícil manter o pagamento das contas em dia, uma vez que o brasileiro, em geral, não possui o hábito de poupar para possíveis situações emergenciais. De acordo com o SPC, apenas 42% conseguem juntar alguma quantia.

Elevação

De acordo com o Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor, os primeiros seis meses do ano tiveram crescimento dos inadimplentes de 16,4%, na comparação com o mesmo período de 2014. É a maior alta dos últimos cinco anos, quando o índice registrou elevação de 19,1%. O Indicador reflete a inadimplência nacional.

Se levado em comparação somente o mês de outubro, o Nordeste foi a região que liderou o crescimento do número de inadimplentes, na comparação com o mesmo mês do ano passado, com variação de 7,97%; seguido do Centro-Oeste (7,11% - a maior variação já apresentada pelo indicador na região); o Sul (6,72% - segunda maior variação desde junho de 2012) e o Norte (5,97%). Os dados são do SPC Brasil e CNDL.

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