Poeta popular

Casa é transformada em biblioteca

Erivaldo Alencar reuniu um vasto acervo ao mesmo tempo que produz suas próprias poesias

00:00 · 24.04.2016 por André Costa - Colaborador
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Muitas das obras, expostas nas paredes, foram adquiridas no lixo ( Fotos: Claudiana )
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Pinho Aposentado, Erivaldo não deixa de vender picolé porque é nas ruas que busca inspiração para os seus poemas

Juazeiro do Norte. Entrar em um lugar cheio de livros é algo especial para muitas pessoas que apreciam a literatura. No Brasil, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam que para a cada 33 mil habitantes existe uma biblioteca pública. No município de Acopiara, na região centro-sul do Estado, um poeta popular deixou as estatísticas de lado para realizar seu sonho: ter sua própria biblioteca.

Aos 67 anos, Francisco Erivaldo Pereira Alencar, mais conhecido como Erivaldo Alencar, já conta com um acervo de mais de 2.500 livros e cordéis em sua residência. A coleção teve início há quase cinco décadas, advinda do apreço pela escrita: "Eu sempre fui dedicado ao papel, gosto de preservar. Desde os 20 anos eu coleciono, tem muita gente que me chama de louco por ter tudo isso, mas eu vejo diferente, estou guardando a história".

Primogênito de quinze filhos, o repentista popular aprendeu com o pai, agricultor, a escrever as primeiras letras aos 11 anos. Ainda na década de 1960, estudou por três meses em uma escola, mas logo saiu, tornando-se autodidata.

Biblioteca própria

Na sala de estar, quem chega defronta-se logo com os mais diversos exemplares de coleções que não são mais editadas e até livros de editoras extintas estão ali aos olhos de qualquer um que chegue à porta. Colocados em todas as paredes, com pregos e plastificados com sacos transparentes muitas vezes colhidos no lixo, estão lá, livros de vários tipos, tamanhos, gêneros, sejam didáticos, romances, literatura infantil e até mesmo de cursos técnicos.

Apesar da variedade de gênero, o poeta destaca: "todos estão organizados de acordo com a sua categoria". A ideia de expor os livros na parede surgiu diante da necessidade, conta Erivaldo. "É uma grande quantidade de livros e para guardá-los, precisava de bastante espaço". Dos nove cômodos da casa, sete estão assim, com as paredes revestidas de letras e títulos.

Tudo pela obra

Uma dezena de cordéis, CDs, DVDs e revistas antigas que contam a história do Ceará e de sua cidade natal, esperam em cima de uma estante desgastada pelo tempo, um lugarzinho na parede. Sem condição financeira para adquirir tamanho acervo, Alencar conta que encontrou boa parte da coleção no lixo: "Eu não tenho vergonha de catar livro no lixo, acho um desperdício a pessoa jogar um livro fora".

Amante também da música popular, ele também coleciona discos de vinil. "Tenho uns 300 exemplares. Tem de tudo, dos roqueiros do Pink Floyd ao popular brega de Orlando Dias", conta orgulhoso.

Mesmo aposentado, Erivaldo continua trabalhando. Para ele, a atividade de vender picolé há anos trouxe "vivência, causos e inspiração para escrever poemas". As andanças pelos bairros de Acopiara renderam, também, boas histórias. Ele diz que já fez vários negócios "inusitados" para conseguir livros para sua coleção. "Uma vez dei seis picolés a uma pessoa para em troca receber uma obra", recorda.

Poética da vida

Mesmo sem diploma escolar, tornou-se poeta e escritor. São mais de dois mil poemas, em sua maioria, registrados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Erivaldo possui ainda 65 cordéis e oito livros de poesias publicados durante 17 anos dedicados à escrita literária. A venda de picolé contribuiu bastante para a produção, conforme avalia. "É uma maneira de estar ao ar livre e eu me sinto bem. Ando e vou tendo ideias. O contato com o mundo faz bem", relata.

A maioria dos poemas é escrita ali mesmo, na rua, durante o trabalho. Atento ao cotidiano, o vendedor não saí de casa sem repousar um bloco de papel e uma caneta no bolso da camisa de mangas longas. "Alguma coisa que eu vejo que não faz parte da normalidade, ali mesmo eu já começo a escrever. Vejo um fato e tento transformar em poesia. Tudo o que você pode imaginar, pode virar poesia, é o amor, a felicidade, a dor", pondera. Dor que também serve de motivação. "Quando eu estou com problema, em qualquer circunstância, eu pego o papel e escrevo, desabafo justamente com a poesia", acrescenta.

Cotidiano

Bastante ligado à cultura, principalmente à poética e à arte de um modo geral, ele aborda, em seus trabalhos, a vida cotidiana. A violência, o futebol, o futuro do Planeta.

Mas sua preferência é falar sobre o sertão. São diversos poemas e cordéis ligados à cultura sertaneja, dentre eles, as biografias de Patativa do Assaré e de Luiz Gonzaga estão entre as mais famosas em literatura de cordel. Esta última obra conta com mais de 280 estrofes.

As duas lideram o ranking de acesso na internet. Sim, internet! Erivaldo não se deu por vencido pelas novas tecnologias. Segundo ele, não é por ser um sessentão que ficaria de fora do mundo globalizado. Para divulgar seus trabalhos, criou um blog, onde estão publicadas todas suas obras. "Poesias Erivaldo Alencar, esse é o nome do blog e fui eu que digitei todos os meus poemas, um a um", conta orgulhoso.

Planos

Quanto ao futuro, os planos já estão bem definidos. O escritor está preparando um livro sobre a genealogia da família Alencar. Em seguida, almeja voos mais altos. O poeta sonha em fundar uma Academia de Letras na cidade natal para incentivar e disseminar a escrita e a leitura. A curto prazo, diz ele, pretende inserir na Educação do Município a cultura da poesia popular.

Movimento nas escolas

"Estou trabalhando para colocar nas escolas, pelo menos uma vez por semana, uma palestra de um poeta e implantar aulas sobre o assunto", explica. Há pouco tempo, ele se inseriu numa caravana da cultura que leva o trabalho de diversos artistas populares aos bairros da cidade.

O projeto, do governo municipal, intitulado "Acopiara Cultura, Verso e Viola" conta com a participação de cordelistas, violeiros e poetas, que expõem seus trabalhos com o intuito de resgatar a cultura popular.

Assim, Erivaldo Alencar tem conseguido levar um pouco dos seus poemas às crianças, jovens e adolescentes da região. Ele avalia que o momento de "fazer alguma coisa é agora, enquanto há tempo" e diz que o grande desejo é continuar trabalhando com o que gosta, a arte poética. "Esse é meu grande tesouro", finaliza.

(Colaborou Claudiana Pinho)

Mais informações

Poeta Erivaldo Alencar

Rua Coronel José Nunes, 501 - Acopiara

Telefone: (88) 99241-0151

Blog: erivaldoalencar.Blogspot.Com.Br

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