Apoio municipal

Capoeira reúne cerca de 5 mil praticantes na cidade de Barro

Prática esportiva tem sido considerada instrumento valioso para afastar jovens da criminalidade

00:00 · 23.11.2014
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Estima-se que desde que passou a ser desenvolvida em Barro, a capoeira já foi praticada por cerca de 5 mil pessoas, entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias, com projeção de novas adesões a cada ano
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Ao longo de duas décadas, a capoeira ganhou tanta importância que a sua prática passou a ser garantida por meio de Lei Municipal ( Fotos: Roberto Crispim )

Barro. Um dos mais importantes patrimônios da cultura brasileira vem sendo utilizado neste município como forma de auxiliar o afastamento de crianças, jovens e adolescentes do uso do álcool, da droga e da criminalidade. Desenvolvida há quase duas décadas em equipamentos públicos e privados da cidade, a capoeira ganhou tanta importância que a sua prática passou a ser garantida por meio de Lei Municipal. Neste ano, no entanto, devido à falta de recursos, a difusão da capoeira por meio de parceria envolvendo a Prefeitura municipal e praticantes graduados que atuavam como professores acabou sendo suspensa. Há expectativas de que a partir do próximo exercício financeiro, que se inicia em janeiro de 2015, o trabalho volte a ser desenvolvido em maior amplitude.

Embora não existam dados oficiais, estima-se que desde que passou a ser desenvolvida em Barro, a capoeira já foi praticada por cerca de 5 mil pessoas, entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias. Do número total de pessoas que em algum momento tenha praticado o esporte, que na verdade é um misto de dança, luta e representação da cultura afro-brasileira, cerca de 2 mil alunos podem ter sido beneficiados pela forma social da capoeira.

"Pelo menos dois mil alunos, de um total de cerca de cinco mil, poderiam ter adentrado um mundo diferente do que vivem hoje em dia. A maioria, por ser pobre e, até então, ausente da escola, sem muita cultura, apresentava grande propensão ao alcoolismo, ou a droga ou, ainda, ao cometimento de roubos e pequenos furtos", disse Sebastião Coelho Machi, mais conhecido como Mestre Tião Capoeira, responsável por introduzir, em meados de março de 1995, a capoeira no município. Segundo ele, a capoeira não ensinou para as pessoas apenas um modo de defesa pessoal. "Também contribuiu para a melhoria na formação do caráter destas pessoas e, tenho certeza, fez crescer uma vontade dentro deles de ter uma vida melhor, a partir do próprio esforço e dedicação", avalia.

No início, segundo o Mestre Tião Capoeira, eram apenas seis alunos e os treinos aconteciam em um campinho de futebol, em um dos bairros periféricos da cidade. Com o passar do tempo, os treinos passaram a ser realizados durante as madrugadas, no pátio de uma escola da rede pública municipal. A partir daí, deu-se origem ao grupo Ginga Menino, que hoje é formado por cerca de 300 capoeiristas e possui ramificações nos municípios de Ipaumirm, Mauriti e Cachoeira dos Índios, na Paraíba. A capoeira foi aprendida pelo Mestre enquanto ele residia em São Paulo. Ao retornar à cidade natal passou a buscar repassar o que havia aprendido e a introduzir junto aos poucos pupilos a necessidade do afastamento das drogas lícitas e ilícitas, bem como a importância da educação e do aprendizado por meio da permanência na escola. "Quando a gente começou era muito desacreditado. Muita gente chamava a gente de vagabundo, de desocupado, sem saber a importância da ação que nós desenvolvíamos. Hoje o resultado é emocionante. Muita gente que treinou comigo, lá no comecinho, e que poderia ter se perdido na vida, hoje trabalha como policial militar, ou está formado em nível superior. A capoeira mudou a vida de muita gente", salienta.

Acadêmico do curso de Assistência Social, o Mestre defende que a capoeira se transforme em um dos mais eficazes instrumentos de resgate social do município. "Crescemos muito por conta dos programas federais que acabaram por fortalecer o nosso trabalho. Na verdade, nós conseguimos aliar estes programas com o desenvolvimento de uma ação que une cultura, esporte, educação e assistência social. A capoeira, quando trabalhada com dedicação, respeito, ética e cidadania, acaba se transformando em um importante instrumento de transformação de vida", observou Mestre Tião.

Recursos

A secretária do Trabalho e da Assistência Social de Barro, Cila Araújo, disse lamentar que a falta de recursos financeiros no município tenha ocasionado a paralisação das atividades da capoeira em equipamentos públicos. Porém, conforme afirmou, a Prefeitura está buscando meios para retomar a parceria a partir do próximo ano.

"Não há como discutir os benefícios que a prática da capoeira oferta à nossa população. Infelizmente o ano foi muito complicado para as administrações públicas no que diz respeito aos repasses federais, principalmente o FPM. Nos já iniciamos o planejamento para o próximo ano e, dentro dele, esperamos reativar o ensino da capoeira em equipamentos do nosso setor, como o Cras, por exemplo", informou a secretária.

Cila Araújo comentou, ainda, que também é intenção do governo local reativar as aulas de capoeira em escolas da rede pública na sede do município. "O desejo é fazer com que este serviço continue beneficiando a nossa gente, sobretudo a juventude", finalizou.

Roberto Crispim
Colaborador

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