Vistoria

Bombeiros revelam serviço precário

Ministério Público verifica dificuldades elementares no enfrentamento a incêndios na região

00:00 · 20.09.2015 por Elizângela Santos - Colaboradora
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Viaturas se mostraram inadequadas para as atuais demandas ( Fotos: Elizângela Santos )
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A corporação não conta com uma escada magirus, que é um instrumento fundamental para ajudar no combate ao fogo, numa cidade que expandiu sua área urbana no sentido vertical. Incêndios em prédios altos são sempre um grande desafio

Juazeiro do Norte. O Corpo de Bombeiros está na contramão do desenvolvimento deste Município. O órgão foi notificado recentemente pelo Ministério Público. As deficiências evidenciadas na terra do Padre Cicero foram debatidas nesta semana durante audiência realizada com a presença de diversos órgãos e seus representantes. Carências de equipamentos, pessoal, além da própria infraestrutura precária da sede, em Juazeiro, foram apontadas.

Pessoas prejudicadas com sinistros ocorridos neste ano na cidade, um deles de maior gravidade no comércio, em abril, com uma morte registrada, expuserem suas preocupações e prejuízos causados. O corpo de um homem foi encontrado carbonizado em uma loja de tintas, somente três dias depois do incêndio, considerado pelo próprio Corpo de Bombeiros de grave proporção.

A grande quantidade de material inflamável existente, como baldes de tinta de até 200 litros, e querosene, provocou diversas explosões. Agentes da corporação que estavam de folga vieram dar um reforço, o que foi justificado como uma prática comum para o órgão, que conta com dez funcionários para prestar assistência diária, incluindo 15 municípios. Mas, boa parte do efetivo, reside em Fortaleza. Caso ocorra incêndios em outras localidades, o Município fica descoberto, conforme representantes de entidades de segurança.

Dificuldades

Problemas como a própria sinalização de hidrantes foram enfatizados. O Ministério Público irá solicitar ao Departamento Municipal de Trânsito (Demutran) da cidade, que sinalize essas áreas, para que não sejam ocupadas por veículos. Num dos incêndios registrados na Rua São Paulo, no Centro de Juazeiro, um dos problemas esteve associado à ocupação do local, impedido que o hidrante fosse acessado, sem falar que quando houve condições, os agentes do Corpo de Bombeiros tiveram dificuldade com a chave para obter vazão suficiente de água para combater o incêndio no local.

Segundo a proprietária de imóveis ao lado a loja de tintas, a advogada Flávia Soares, que provocou, por meio de sua reclamação, a realização da audiência, prédios de sua família foram prejudicados. Ela afirma que esteve no local do incêndio e pôde constatar a deficiência das condições de atuação do órgão, inclusive veículos tiveram de ser acionados de Iguatu, para dar conta da situação, além de auxílio externo. A advogada ainda destacou que, durante o incêndio, dois bombeiros ficaram feridos, e os profissionais inclusive tentaram acionar a espuma de combate a incêndios, utilizada, normalmente, para conter chamas nas aeronaves, mas o equipamento apresentou defeito.

Em incêndios registrados na Zenir Móveis, em 2007, e na loja Ponto da Moda, em seguida, no Centro, conforme ela, foram constatadas as mesmas condições precárias de atuação, que já acontece há vários anos. Os profissionais tiveram apoio até de veículos com escadas da Coelce, para conter as chamas.

Deficiências

O auxílio de uma escada mecânica, ou magirus, não existe em Juazeiro. O equipamento entregue pelo Governo do Estado à cidade em 2008 era utilizado em Sobral e chegou no Cariri com defeito. Ou seja, nunca funcionou. Mas, para o comandante do 5º Grupamento de Bombeiros do Cariri, Marcílio Guimarães Cavalcante, seria um equipamento de apoio, numa cidade que, nos últimos anos, teve um crescimento verticalizado, de forma ampla, principalmente em bairros como Lagoa Seca. Ele ainda ressalta que é muito caro, normalmente importado e que as próprias condições da maioria das ruas do Centro, não permitem o tráfego do caminhão, por serem muito estreitas. O equipamento com defeito se encontra estacionado há cerca de sete anos, debaixo de um pé de manga, na corporação.

Atualização

A cidade de Juazeiro do Norte não teve, nos últimos anos, apenas um desenvolvimento em termos de edificações verticais e consequente expansão urbana. O crescimento desordenado e sem o planejamento devido, faz com que o próprio Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano ainda esteja na contramão, passando por atualização. Para se ter uma ideia, o atual não prevê a construção de edifícios.

Dezenas deles já estão construídos e em construção em bairros e no Centro. A população, segundo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), saltou de 173 mil e 566 habitantes em 1991, para se ter uma ideia do crescimento populacional, para 266,022 mil, de acordo com última contagem, realizada neste ano. Uma diferença de mais de quase 92,5 mil habitantes, em 24 anos. O prédio do órgão, na cidade, foi fornecido pelo município e há uma dificuldade de ser realizada melhoria no local pelo Estado, por conta dessa situação. Outro ponto questionado diz respeito aos hidrantes. Dois no Centro, um deles nas proximidades da Basílica-Santuário, e outro próximo da Rua São Paulo, estão sem o funcionamento devido. Atualmente são 11 instalados no Centro e em bairros, operacionalizados apenas pelos agentes do Corpo de Bombeiros.

O representante da Cagece, Galba Batista, gerente regional, disse que foi realizada a última avaliação e todos estavam em perfeito funcionamento. Uma nova avaliação será realizada, juntamente com o Corpo de Bombeiros, para verificar novos locais onde possam ser instalados mais equipamentos do gênero. O prazo estabelecido pelo Ministério Público foi de 60 dias. A promotora Alessandra Monteiro, irá solicitar informações ao governo do Estado a respeito das instalações atuais do Corpo de Bombeiros, que teve inspeção do órgão. "Percebemos que o grupamento de Juazeiro ainda não conta com uma estrutura mínima, com segurança adequada", afirma. Em relação a pessoal são apenas três deles destinados à realização de fiscalização na cidade.

A promotora disse que fará uma nova audiência, que dessa vez deverá acontecer na câmara municipal, com a presença de representantes do governo do Estado, para dar encaminhamentos mais precisos em relação às questões de infraestrutura do órgão. Ainda não há data para nova reunião. Para o vereador Gladson Bezerra, a situação do Corpo de Bombeiros tem sido um problema recorrente apresentado na Câmara e ele disse que está disponível, juntamente com o legislativo, para adequar em termos de lei, o que for necessário, no intuito de facilitar a atuação do Corpo de Bombeiros.

O presidente da Associação dos Profissionais da Segurança, Reginaldo Nascimento, afirma que há atualmente um déficit de 1.500 homens, no Corpo de Bombeiros, em todo o Estado. Há 14 anos não acontece, segundo ele, concurso no Estado para a instituição. Há um concurso em validade, com mais de 500 pessoa classificadas, aguardando serem chamadas.

Ele ainda destacou que os próprios profissionais atuam sem equipamentos necessários, como capas de aproximação e há insuficiência de capacetes. Para suprir a demanda, ele diz ser necessário triplicar o efetivo, que atualmente conta com menos de cem homens, em Juazeiro do Norte.

O comandante afirma que atualmente, mesmo não sendo o efetivo ideal, é considerado normal e vem atendendo ao Município. Ele lembra que foram solicitados pelo comando novos equipamentos ao Governo do Estado e está aguardando licitação para compra dos produtos. 

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