Patrimônio cultural

Bens históricos sofrem processo de degradação

Um dos últimos prédios que foi derrubado em Barbalha, no início deste mês, motivou a vinda da Iphan à região

00:00 · 30.11.2014
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O Casarão Hotel é um dos dois prédios tombados pelo Patrimônio Histórico Estadual em Barbalha. Outros sítios protegidos já demonstram sinais de abandono e falta de manutenção pelo poder público ( Fotos: Elizângela Santos )
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Demolições de casas no Centro Histórico de Barbalha acontecem no presente, enquanto que, em Juazeiro, essa ação destruiu boa parte das edificações antigas

Barbalha. Cidades do Cariri aos poucos destroem o seu passado e perdem o referencial histórico, principalmente a memória arquitetônica. Vez por outra moradores reclamam da derrubada e abandono de prédios que contam um pouco da história do lugar. Até o momento, nenhuma edificação foi tombada pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na região, mas há projetos em andamento.

Um dos últimos prédios que foi derrubado em Barbalha, no início deste mês, motivou a vinda da superintendência do Iphan no Estado à região, e foi pedido o embargo da obra. Justamente no Centro histórico da cidade, de frente a um prédio tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado, que é o Casarão Hotel, concluído em 1859, e que lembra a aristocracia do século XX de Barbalha.

É justamente da cidade onde há esse patrimônio melhor caracterizado e ainda conservado na região que chama atenção a forma como, aos poucos, a possibilidade desenvolver turismo para admirar essa velha arquitetura está ruindo. Prédios nas proximidades de edificações tombadas não podem ser destruídos sem antes haver uma avaliação da situação de como se encontra, para ser recuperado em sua originalidade. A antiga casa pequena, mas com fachada ainda preservada, é ligada a uma construção do século XIX, onde funcionava um comércio.

Benefício

O Centro histórico foi beneficiado com uma lei municipal, que possibilita a proteção das edificações mais antigas, sejam residências ou estabelecimentos comerciais. Isso aconteceu em 1986 e, até hoje, moradores sentem falta de benefícios que possam assegurar a manutenção dos velhos casarões, alguns deles centenários.

Houve também o inventário de 44 casas na cidade, com indicações para tombamento, mas há aquelas que desse tempo até hoje já foram destruídas pelo desgaste do tempo ou pelos seus proprietários. Mas o gesto de preservação tem sensibilizado alguns donos dos bens. Como é o caso de prédios que estão sendo recuperados, mas continuam com as fachadas intactas. O mesmo vem acontecendo em Crato, com edificações antigas no Centro, mas que ainda não foram avaliadas como bens históricos, como o antigo Cine Cassino, prédios públicos como o conjunto da estação ferroviária da cidade e a casa de Câmara e Cadeia, na área da praça da Sé onde muitas casas antigas já foram destruídas. Mas prédios antigos recuperados passam a ser casos isolados. Há uma resistência e uma falta de entendimento de algumas pessoas em relação à importância do tombamento

Há cerca de quatro anos, a população de Barbalha resistiu à derrubada de uma casa no Centro que pertencia às edificações da estação ferroviária. Havia a dúvida se o prédio estava entre os que tinham sido inventariados para o possível tombamento. Foi ao chão para que fosse erguido no local um comércio de sapatos.

Mesmo assim, com o trabalho de educação patrimonial que se desenvolvia na época, não houve avanços referentes ao cumprimento da lei municipal.

Avaliação

O superintendente do Iphan no Estado do Ceará, Murilo Cunha, afirma que será realizada uma avaliação para verificar os prédios passíveis de tombamento, diante dos que já foram inventariados, e avaliar os que poderão ser inseridos.

Exemplos recentes são das duas igrejas da cidade, uma delas, a matriz de Santo Antônio, onde foram encontrados os pisos originais, identificados a partir de uma reforma que vem sendo feita no local, e pinturas desde a construção.

O professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), Josier Ferreira Silva, tem tido a preocupação de fazer os registros, ao mesmo tempo em que expõe a realidade e leva até as redes sociais. Ele acompanhou, no início de novembro, a derrubada do prédio no Centro de Barbalha e também fez os registros, que considera importantes descobertas, na igreja matriz da cidade e até arrisca dizer que possivelmente o escritor e jornalista José Marrocos, primo do Padre Cícero, possa ter caminhado por aquele chão revestido de mosaicos. Com o novo levantamento a ser feito por meio do Iphan, haverá todo um processo a ser seguido até o possível pedido de tombamento provisório das edificações inventariadas, que poderá durar até o definitivo.

Mesmo com denúncias anteriores da própria população da derrubada de casarões e sobrados, o próprio poder público não tem se ocupado muito do expediente de atuar de forma conscientizadora.

O prédio recentemente destruído fica em frente ao Casarão Hotel histórico, onde funciona a Secretaria de Cultura da Cidade. O outro prédio tombado pelo patrimônio histórico é o Palácio 3 de Outubro, que teve sua fachada preservada há alguns anos. O professor Josier destaca que as autoridades locais não sinalizam nesse momento quanto ao processo de recuperação, que merece mais atenção do poder público. (E.S.)

Passado arquitetônico já não mais existe em Juazeiro

Juazeiro do Norte. Esta é uma cidade sem um passado arquitetônico que identifique as suas primeiras construções. É de contar nos dedos os últimos sobrados existentes no entorno da praça Padre Cícero e a estação ferroviária construída e inaugurada pelo sacerdote, de 1926, passa por sucessiva depredação.

Na Rua São José, no Centro, uma das primeiras vias da Cidade, são poucos os prédios mais antigos, num município com apenas 103 anos de história. A casa que serviu de morada ao sacerdote fundador de Juazeiro, Padre Cícero, e um abrigo de idosos se destacam.

Muitos dos outros já edificados dão lugar às novas casas de comércio, prédios comerciais e residenciais, em locais onde a especulação imobiliária é altíssima, chegando a valores por metro quadrado equivalentes a muitas capitais do Brasil.

Os velhos casarões e sobrados de Juazeiro que marcaram as primeiras edificações do município praticamente não existem mais. Mesmo nas fotografias, alguns dos locais, onde estavam prédios referenciais da cidade, hoje sequer são identificados. Essa é a realidade de uma cidade dinâmica que tem procurado se adequar a uma realidade de crescimento constante. Os primeiros moradores que chegavam ao Juazeiro não tinham uma preocupação com a memória da cidade, principalmente quando se fala em edificações. Há áreas transformadas várias vezes nesses pouco mais de cem anos. Esse mínimo valor afetivo pelas formas em concreto é demonstrado pelo que resta.

Paisagens

O escritor Daniel Walker lembra de uma frase do monsenhor Murilo de Sá Barreto, em que ele dizia que Juazeiro é de pouca geografia e muita história, sobre a dinâmica de mudanças para a adequação do desenvolvimento ao lugar. Ao repassar as paisagens antigas da velha Juazeiro, quase nada resta como lembrança. A memória foi apagada em nome do crescimento contínuo. E esse desenvolvimento passou a ter impulso principalmente após o milagre de 1889, com o sangramento da hóstia ofertada pelo Padre Cícero à beata Maria Araújo. A movimentação aumentou, a polêmica se espalhou e todos queriam conhecer o padre santo, que acolhia todos.

"O pior é que não existe ninguém do poder público para concretizar de forma definitiva o tombamento dos nossos prédios históricos. Enquanto isso, a gente vê placas em todo lugar estimulando a visitação turística ao centro histórico de Barbalha", afirma o professor Josier. (E.S)

Mais informações:

Instituto do Patrimônio Histórico
E Artístico Nacional (Iphan-CE)
Rua Liberato Barroso, 525
Fortaleza
Telefone: (85) 3221.6263

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